ACESSE

A dica que Dias Toffoli deu para Sergio Moro

Telegram

Quando tirou da cachola (ou das cacholas) a ideia de impor quarentena de oito anos a ex-juízes e procuradores que desejem concorrer a cargo político, Dias Toffoli, sempre sutil, disse o seguinte:

“A imprensa começa a incensar determinado magistrado e ele já se vê candidato a presidente da República, sem nem conhecer o Brasil, sem nem conhecer o seu estado, sem ter ideia do que é a vida pública.”

O recado a Sergio Moro mostra uma das frentes de ataque à sua eventual candidatura, em 2022, para além da tentativa de criar a tal quarentena (que dariam um jeito de ser retroativa, evocando-se o que ocorreu com a Lei da Ficha Limpa), decidir pela sua suspeição nos processos contra Lula (Gilmar já está quase lá) e abrir uma CPI da Lava Jato (a suspeição de Moro poderá ser o fato detonador). A frente explicitada por Dias Toffoli é a da falta de conhecimento da realidade brasileira.

Ninguém deixou de ser presidente da República por falta de conhecimento da nossa realidade, mas seria bom mesmo para Moro (e para o país) se ele começasse a dizer mais o que pensa sobre os grandes problemas que afligem os cidadãos. Ele é professor no combate a duas das nossas pragas — a corrupção e a falta de segurança cotidiana –, mas não se sabe quais são as suas visões sobre economia, saúde, educação, infraestrutura e meio ambiente. Está-se falando, é claro, de linhas gerais. Moro é um liberal ou um estatista? Como acha ser possível melhorar o SUS? Basta aumentar salário de professor para que a prioridade ao ensino fundamental se concretize? Ferrovias ou rodovias? Como preservar o meio ambiente sem tolher o desenvolvimento?

Uma vez que as linhas gerais estivessem claras, seria importante que se conhecesse quais seriam as pessoas que o ajudariam na confecção de um plano de governo e na sua execução. Em quem Moro confia para estar ao seu lado? Na segurança pública, já se tem pistas. Mas e nas outras áreas? Imagina-se que, passada a pandemia, se for mesmo candidato, ele começará a viajar bastante pelo Brasil, para fazer-se ver do Oiapoque ao Chuí. Obrigatório. Não basta, contudo. É forçoso que Moro mostre ter um ideário a partir do qual será estabelecido um plano.

Por último, mas não menos importante: por qual sigla ele se lançaria candidato? Ela seria capaz de agregar partidos importantes, superando desconfianças, para aumentar a base parlamentar de Moro e possibilitar que conseguisse governar? Temos hoje um presidente sem partido — estranheza inédita na estranha história republicana –, mas não parece boa ideia ter outro.

Alguns poderiam argumentar que ainda está muito cedo para Moro abrir as cartas, apesar de todos os seus adversários já estarem em campanha mais ou menos aberta para 2022, daí o recrudescimento dos ataques ao ex-juiz da Lava Jato. Tudo bem, cada um escolhe a sua estratégia. Se acha melhor manter o segredo de Polichinelo — no caso de se tratar disso, e não de indecisão –, que vá em frente. O segredo ou a indecisão, contudo, não são empecilhos para sabermos o que ele pensa sobre os diversos assuntos que dizem respeito ao desenvolvimento do Brasil.

Ainda que de maneira torta, Toffoli deu uma dica a Moro.

Leia mais: Combo O Antagonista e Crusoé: comece a ler por apenas R$ 1,90/mês

Comentários

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade é do autor da mensagem. Em respeito a todos os leitores, não são publicados comentários que contenham palavras ou conteúdos ofensivos. Tempo de publicação: 4 minutos
Ler 209 comentários