Bolsonaro deixa claro: ele é quem manda

Antes de assumir a Presidência da República, dizia-se que Jair Bolsonaro seria tutelado pelos militares e pelos superministros que ele chamou para compor o governo.

O que se viu no primeiro ano de sua gestão, porém, foi o oposto: o presidente é quem mandou e desmandou nos generais. Mandando embora alguns, inclusive.

A tensão entre Bolsonaro e parte do primeiro escalão do governo ficou evidente logo na largada.

Nos primeiros seis meses do ano, três ministros foram demitidos.

Dois deles caíram por influência do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente: Gustavo Bebianno e o general Santos Cruz.

Ao ser defenestrado da Secretaria de Governo, depois de Olavo de Carvalho insuflar um ataque coordenado contra Santos Cruz, o general da reserva denunciou o que ele chamou de “show de besteiras” do governo.

Enquanto o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, saiu em defesa de Santos Cruz e reagiu contra os ataques de Olavo, o “Trotsky da direita”, Bolsonaro deu de ombros.

Disse que continuava“admirando o Olavo”. E ainda o condecorou com o grau de Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco.

O clima entre Bolsonaro e Mourão, no começo do ano, também não era nada bom. Em entrevista à Crusoé, o vice-presidente admitiu ter ouvido de Bolsonaro o apelo para se expor menos e adotar um perfil mais moderado. O presidente — e Carluxo — achava mesmo que o vice-presidente queria dar um golpe e tomar a cadeira presidencial.

Restou a Mourão obedecer à ordem. Quando a Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o tempo de comandante do bunker encarregado do programa de governo do capitão virou passado remoto.

Em março, a passagem de Bolsonaro por Washington foi marcada por uma curiosidade: foi o filho Eduardo e não o chanceler Ernesto Araújo que acompanhou o presidente brasileiro no encontro com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca.

A visita aos EUA foi bem-sucedida, com o apoio do presidente americano à entrada do Brasil na OCDE , que foi prematuramente alardeado, e o aceno para que o país se associasse à OTAN.

Em julho, Bolsonaro anunciou que pretendia nomear Eduardo para o posto de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, e justificou a escolha: “Ele é amigo dos filhos de Trump”.

Foi nessa ocasião que a palavra “acordão” voltou a ser pronunciada em Brasília.

O motivo: Dias Toffoli, durante o recesso do Judiciário, aproveitou um pedido da defesa de Flávio Bolsonaro, investigado por peculato e lavagem de dinheiro, para determinar a suspensão de todas as ações criminais com base em informações do Coaf e da Receita Federal obtidas sem autorização judicial.

A decisão, como mostrou a Crusoé, tinha dupla utilidade. Beneficiava o clã Bolsonaro e contemplava o próprio Toffoli e Gilmar Mendes, que andavam furiosos desde que descobriram ser alvos de apurações internas na Receita.

Acordão, crises contínuas.

Na PF, Bolsonaro inaugurou uma delas ao tentar acomodar na superintendência do Rio um delegado de sua confiança: “Quem manda sou eu”, declarou.

Ao achar que sua autoridade estava sendo questionada, Bolsonaro então passou a cogitar a troca do diretor-geral da PF, Mauricio Valeixo, homem de confiança de Sergio Moro — que também entrou na mira do presidente e entorno.

O presidente disse que a PF precisava de uma “arejada” e, numa fala ambígua, que não confiava 100% no ministro da Justiça.

Na Receita, a interferência de Bolsonaro em postos-chave no Rio de Janeiro provocou outra encrenca. Auditores acusaram o presidente de “tentativa intolerável de interferência política” e ameaçaram “renúncia em massa”.

Questionado sobre as interferências na PF e na Receita, Bolsonaro disse: “Fui eleito presidente para interferir mesmo”.

Quanto ao Coaf, o órgão saiu do âmbito de Moro e voltou para o de Paulo Guedes, para em seguida ser transferido para o Banco Central, graças a uma medida provisória assinada por Bolsonaro. Virou Unidade de Inteligência Financeira (UIF).

As críticas do então presidente do Coaf Roberto Leonel à decisão de Toffoli de interromper as ações criminais também desagradaram Bolsonaro.

Leonel, que integrou a Lava Jato em Curitiba e foi levado para Brasília por Moro, recebeu o bilhete azul em agosto por pressão do Planalto.

O ministro engoliu esses sapos presidenciais e, hoje, sustenta-se principalmente na aprovação imensa da maioria dos brasileiros. Até Bolsonaro sabe que, se mandá-lo embora ou Moro pedir o chapéu, tudo ficará ainda mais difícil para ele.

De resto, o presidente sofreu derrotas no Congresso: o decreto que amplia o porte de armas foi rejeitado, a ampliação do chamado Orçamento Impositivo foi aprovada e medidas provisórias de interesse do governo caducaram. E também foi bastante limitado nas suas ações pelo STF, como nos casos da demarcação de terras indígenas, que foi mantido com a Funai, a suspensão do fim do seguro obrigatório para veículos e a manutenção de conselhos que o presidente pretendia restringir.

As vitórias, contudo, foram alvissareiras: a aprovação da reforma da Previdência; a autorização para privatizar subsidiárias estatais; a MP contra fraudes do INSS e o anúncio do acordo entre Mercosul e União Europeia — que se encontra ameaçado não por causa das falas destemperadas de Bolsonaro, mas principalmente pelo presidente da França, Emmanuel Macron, que encontrou nas queimadas da Amazônia um pretexto para não assinar o acordo e, assim, fazer média com os eleitores jovens do seu país e acalmar os agricultores franceses, dopados à base de subsídios e com medo da concorrência do agronegócio brasileiro.

A economia também vai de vento em popa: desemprego em baixa, consumo aumentando, PIB em alta, taxa de juros no menor nível da série histórica, déficit nas contas governamentais sob controle, bolsa de valores batendo recordes de alta, empresariado confiante, risco-país em queda livre.  Nem a imprensa contra a qual o presidente vive em guerra e vice-versa é capaz de ignorar essas boas notícias — a única que tentam contestar, apesar das estatísticas positivas, é a da segurança pública.

Em novembro, após uma série de desentendimentos entre Bolsonaro e Luciano Bivar, o presidente anunciou que deixaria o PSL e criaria um novo partido, o Aliança pelo Brasil.

Bolsonaro é quem manda. Menos no partido ao qual se filiou para chegar ao Planalto.

O presidente termina o ano bastante tenso com a situação de Flávio Bolsonaro, o filho 01, alvo de investigação do MP do Rio de Janeiro sobre o esquema de “rachid” que supostamente existia no gabinete do então deputado estadual na Alerj, lotado de milicianos e assemelhados. A busca e apreensão feita há duas semanas em endereços de ex-assessores de Flávio, de uma ex-mulher do presidente e do próprio 01 fez com que Bolsonaro perdesse de vez as estribeiras com jornalistase aumentasse ainda mais o tom contra o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, a quem acusa de conspirar contra ele, manobrando o MP fluminense e a imprensa.
O efeito Flávio também pôde ser sentido na iniquidade chamada “juiz de garantias”. Ao sancionar o pacote anticrime de Alexandre de Moraes, em vez do de Moro, o presidente não vetou essa criação feita sob medida para tirar poder dos juízes de primeira instância empenhados em tratar com severidade os criminosos de colarinho branco.

Ao final do primeiro ano de governo, a sua popularidade teve baixa significativa. A queda foi maior do que a dos últimos presidentes no mesmo período. Para além das questões objetivas, o estilo permanentemente belicoso de Bolsonaro inspira desconfiança. A autocontenção lhe traria menos problemas e não daria tanta munição aos adversários. Mas ele começa a perder apoio também na base “lavajatista” que ajudou a elegê-lo. Filho enrolado é um problemaço.

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