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Bolsonaro é também espelho de um Brasil que antecede a circunstância

As explicações publicadas na imprensa para o fato de Jair Bolsonaro ter a maior aprovação popular  desde que assumiu o mandato, segundo a pesquisa do Datafolha, são todas lógicas e verdadeiras. Assim como nós fizemos, eles apontam como motivos o auxílio emergencial, a atenuação do discurso belicoso do presidente, a estratégia desonesta de jogar exclusivamente nas costas dos governadores o malfadado combate à pandemia e o fato de Bolsonaro aparentar ter empatia com os mais pobres, ao dizer que o isolamento social gera desemprego e, por isso, deveria ter sido ainda menos rígido.

Há, no entanto, um aspecto que não deve ser subestimado: a maior parte dos brasileiros, não importa a classe social, está cansada de isolamento social e não consegue enxergar uma boa relação custo-benefício em obedecer às diretrizes das autoridades sanitárias, visto que o número de mortos pela Covid-19 ultrapassa os 105 mil. É um cansaço existencial, que ultrapassa o lado da economia, depois de mais de cinco meses de quarentenas e lockdowns. A impressão é que, ao assistir às saídas irresponsáveis de Bolsonaro, são poucos os que realmente se indignam, por mais que se afirme o contrário em respostas a pesquisas.

Sem isolamento social, o número de mortes causadas pela doença seria exponencialmente maior. É de se perguntar se esse dado comove, de fato, os brasileiros. Aparentemente, não como deveria. E ele não é tão comovente em países mais avançados do que o nosso, principalmente entre os jovens. Basta ver as “festas da Covid” que ocorrem nos Estados Unidos e na Europa. Há uma peculiaridade nacional, contudo, que agrava o quadro e deve ser levada em conta: no Brasil, sempre se deu muito pouco valor à vida, como mostram as indecentes estatísticas de homicídios e acidentes de trânsito. Somos, infelizmente, um povo resignado na nossa ignorância, fatalista na nossa ferocidade e anestesiado nas nossas divisões socioeconômicas.

Bolsonaro tem comportamento de sociopata, não há dúvida, mas o Brasil também sofre de mal coletivo semelhante, as milhares de exceções confirmando a regra, e nosso psiquismo social doentio está ainda mais evidente neste momento. O presidente é espelho de um país que antecede a circunstância. Por isso também a sua atuação na pandemia não fez despencar a sua popularidade. Pelo contrário, até a aumentou. Aliados aos fatores objetivos e perfeitamente visíveis para esse fenômeno, há os subjetivos que simplesmente não queremos ver. Bolsonaro pode até passar, mas nós dificilmente passaremos.

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