Bolsonaro na ONU e a tradição brasileira de desinformação

Bolsonaro na ONU e a tradição brasileira de desinformação

O problema dos discursos internacionais de Jair Bolsonaro é que eles são bons porque poderiam ser muito piores, dado o histórico das falas do presidente da República dirigidas exclusivamente aos brasileiros. Como Bolsonaro dá motivos para que o pintem no exterior como a encarnação de Belzebu, ele até parece um estadista quando recita o texto que se desenrola no teleprompter, por mais absurdo que seja o seu conteúdo. Parece, mas não é.

No discurso deste ano, Bolsonaro não poderia deixar de abordar mais extensamente a questão ambiental. O Brasil sofre sério risco de perder cada vez mais investimentos estrangeiros por causa das queimadas na Amazônia e no Pantanal. Só que ele preferiu negar que a floresta esteja ameaçada, ao ir na contramão dos fatos. Bolsonaro afirmou que, por ser úmida, a floresta “não permite a propagação do fogo em seu interior” e que “os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas” . A umidade pode até dificultar o avanço do fogo, mas está longe de evitar que ele se propague, ou não haveria grandes queimadas na Amazônia como as que ocorrem. O caboclo e o índio podem até ter certa responsabilidade em pequena parte dos danos infligidos, por causa da coivara, mas os maiores culpados são mesmo os grileiros e fazendeiros que avançam sobre a floresta para estabelecer áreas de pastagem e agricultura. A fala de Bolsonaro não foi nada tranquilizadora para as empresas estrangeiras que sofrem pressão de ambientalistas para cortar investimentos destinados a um país que queima a sua gigantesca floresta. Também não ajudará na tarefa de convencer os parlamentos europeus a ratificar o acordo da União Europeia com o Mercosul. Quanto à “tolerância zero” dele com os crimes ambientais, talvez seja o caso de fazer acareação com os fiscais que atuam nas regiões afetadas.

Bolsonaro fez eco à convicção dos militares de que potências estrangeiras querem apropriar-se das riquezas da floresta amazônica. O general Augusto Heleno, na sua língua peculiar, disse ontem que o desejo dos ambientalistas de prejudicar o Brasil e derrubar o presidente era “obviamente oculto, mas evidente”. Evidência nada oculta é a paranoia dessa visão, infelizmente alimentada no ano passado por Emmanuel Macron. O presidente francês disse que a Amazônia era um “bem comum”, afirmou que a região deveria ter “status internacional” e tentou levar, sem sucesso, o assunto da floresta para a reunião do G7, foro do qual o Brasil não faz parte. A fala de Macron foi desastrada, mas, francamente, não existe plano internacional para tomar dos brasileiros as riquezas da Amazônia. O que há é a necessidade de preservá-la, porque isso interessa principalmente à regulação do clima no planeta — e, salvo engano, o Brasil ainda faz parte da Terra.

No capítulo sobre a pandemia, Bolsonaro tentou limpar a sua barra, jogando sobre as costas dos governadores a responsabilidade por sermos um dos países mais fustigados pela Covid-19. Está certo que os governadores brasileiros não são grande coisa, mas o presidente da República é, entre todas a autoridades do país, a que mais negou a gravidade da pandemia e a que mais agiu para sabotar a quarentena. A sua recusa em coordenar o enfrentamento, os seus discursos inconsequentes e as suas constantes saídas à rua estão gravadas e documentadas. A sociopatia é incancelável. Diante da plateia da ONU, Bolsonaro ainda disse que  “a pandemia deixa a grande lição de que não podemos depender apenas de umas poucas nações para produção de insumos e meios essenciais para nossa sobrevivência. Somente o insumo da produção de hidroxicloroquina sofreu um reajuste de 500% no início da pandemia”. Deve ter soado espantoso a ouvidos desenvolvidos que o presidente brasileiro ainda fale em hidroxicloroquina, remédio que não tem efeito positivo nenhum no tratamento da Covid-19. No Halloween, muitos franceses vão trajar fantasia de Didier Raoult, o embusteiro de Marselha que divulgou no Ocidente a hidroxicloroquina como panaceia para a pandemia. Talvez eles se animem também a usar a fantasia de Jair Bolsonaro.

Para o presidente da República, parte da imprensa é culpada pelo “pânico” que teria sido causado pela pandemia. Bem, se houve pânico, ele não foi suficiente para evitar que tenham sido registrados, até este momento, mais de 4,5 milhões de casos de Covid-19 no Brasil e quase 140 mil mortes. A verdade é que, se dependesse apenas de Bolsonaro e o seu apreço pelas liberdades supostamente violadas pela quarentena e o uso de máscara, a doença teria causado hecatombe ainda maior no Brasil, inclusive econômica. Quanto à politização do vírus, foram os bolsonaristas que, estimulados pelo presidente da República, divulgaram que a sua gravidade se tratava de invenção destinada a arruinar a economia brasileira e, consequentemente, inviabilizar o governo Bolsonaro e a reeleição do inquilino do Planalto.

Quanto ao restante da fala do presidente na ONU, ela não passou de autopropaganda para consumo interno, temperada por folclore ideológico-religioso, além da mãozinha para Donald Trump, o amigão mui amigo, quando Bolsonaro elogiou o recente acordo de paz no Oriente Médio. Ao fim e ao cabo, ficou provado mais uma vez que a tradição de reservar ao Brasil o discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas deveria ser quebrada. Desde sempre, a nossa tradição é fazer para o mundo uma brutal campanha de desinformação a nosso respeito.

Leia mais: O erro dos governadores na pandemia. Clique aqui para ler mais
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