ButanVac foi desenvolvida pelo Butantan com base em tecnologia dos EUA. E daí?

ButanVac foi desenvolvida pelo Butantan com base em tecnologia dos EUA. E daí?
Foto: Governo do Estado de São Paulo

Ao anunciar pela manhã a vacina “100% nacional”, João Doria poderia ter agradecido ao Hospital Mount Sinai, de Nova York, por ter fornecido ao Instituto Butantan o vírus que deu origem ao imunizante.

Foi o Mount Sinai que desenvolveu o NDV-based SARS-CoV-2 S, uma versão do vírus da gripe aviária geneticamente modificado e transferido para o Butantan sem pagamento de royalties.

Foi a partir dele que o instituto brasileiro desenvolveu a vacina batizada de ButanVac, que será 100% produzida no Brasil.

Peter Palese, do Departamento de Microbiologia do Mount Sinai, explicou por email que “nós estamos firmando parceria com o Instituto Butantan para fabricar a vacina SARS-CoV-2 S baseada no NDV (Newcastle Disease Virus) do Monte Sinai por meio de uma licença royalty-free”.

“É importante ter um fabricante de vacinas experiente, que saiba como conduzir testes clínicos e produzir/distribuir a vacina de forma eficaz. Estamos convencidos de que o Butantan é o parceiro certo para nossa vacina.”

Em conversa com O Antagonista, Dimas Covas disse que o Butantan fez todo o resto do desenvolvimento da ButanVac, com a “inativação do vírus, adaptação aos ovos, seu crescimento e purificação, além da conservação, com condições de cultivo ideais e medidas de controle de qualidade”.

Segundo ele, a vacina é feita com vários ingredientes, como conservantes e estabilizantes, também de responsabilidade do instituto. Sem falar nos estudos pré-clínicos e clínicos (que virão), toda a parte regulatória e o registro da vacina em si.

“O vírus é uma parte da vacina”, diz.

Não se pode tirar o mérito do Butantan no desenvolvimento de uma vacina que será também totalmente produzida no Brasil, sem qualquer dependência externa, como ocorre com a Coronavac, cujo IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) vem da China.

Não é demérito criar algo nosso a partir de uma tecnologia fornecida por outro país, especialmente quando estamos falando de algo que visa a salvar centenas de milhares de vidas, no Brasil e em outros países.

Quanto a Doria, ele não deveria exagerar no marketing, muito menos no ufanismo num mundo também globalizado pelo coronavírus.

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