A carta do delegado à família de Marielle

Telegram

O Globo divulgou uma carta sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes, assinada pelo delegado Brenno Carnevale, lotado no setor de inteligência da Polícia Civil.

Confira a íntegra:

“Marielle, durante quatro anos ininterruptos de minha vida estive diretamente envolvido em investigações de mortes violentas no Estado do Rio de Janeiro. Acumulo em meu coração ardentes cicatrizes que me fazem lembrar mães, pais, filhos, irmãos, maridos, esposas. Todos vitimados pela maldade humana. Foram muitas madrugadas sem repouso. Muitas lágrimas na penumbra da folga. Assisti a muitos sorrisos desmancharem-se diante da morte. Ouvi gargantas secarem de tantos gritos de dor ao verem de perto a fragilidade do ser e deixar de ser humano.

Carregava em meus ombros a pesada esperança do sucesso das investigações, afinal, meu trabalho representava o horizonte pós-tempestade para as famílias aviltadas pela violência. Era pouco, mas era tudo. Não fui herói. Alguns casos foram solucionados, mas a maioria das investigações ainda segue o errante caminho entre Delegacia de Homicídios e Ministério Público, à espera de uma empoeirada prateleira de arquivo onde possa descansar em paz. Ali se abafam os gritos por justiça ecoados pelos parentes e amigos daqueles que passaram a ser apenas mais um nome impresso em uma guia de remoção de cadáver.

Não precisamos de heróis. Mas escrevo-lhe a verdade, Marielle. Poucos se preocupam com as mortes diárias. São muitas as agruras das investigações policiais em homicídios no Rio de Janeiro. As viaturas, por exemplo, estão sucateadas e sem manutenção. A quantidade de investigadores é pífia diante do volume de vidas humanas ceifadas. As escutas telefônicas, quase uma caixa-preta, muitas vezes inacessíveis a alguns delegados. Algumas armas somem, outras não funcionam. Nunca presenciei deputados ou outros poderosos lutando por equipamentos que permitam encontrar evidências durante a perícia no Instituto Médico-Legal. Aliás, esse mesmo instituto não tem impressora para permitir que uma testemunha seja ouvida imediatamente quando vai liberar o corpo de seu ente querido. Sim, muitos veículos apreendidos ficam abandonados e sem qualquer vigilância. Ouse chamar atenção para este fato e a resposta será sempre a mesma: ‘É assim mesmo’.

E, mesmo assim alguns colegas ainda insistem em se apresentarem em impecáveis ternos e gravatas para bradar nos microfones que está tudo em ordem. Heróis? Diante do caos programado, sinto muito em confessar-lhe que a solução de seu caso pressupõe a paralisação de uma infinidade de investigações de outras mortes, pretas e brancas, ricas e pobres, todas covardes. Escolha de Sofia.

Infelizmente não tive a oportunidade de contribuir para a elucidação de sua covarde morte, e me desculpo por isso. Me aprofundei sobre a árdua e interrompida missão que você com êxito cumpriu por aqui e não pude deixar de escrever-lhe para pedir socorro. Socorro pelas investigações das mortes violentas. Socorro por amor ao ser humano que sei que você, Marielle, ainda nutre onde quer que esteja, mesmo em tempos difíceis de intervenção funeral.

Com respeito e afeto, Brenno Carnevale Nessimian.”

Comentários

  • Marius -

    Que bela carta escrita por esse delegado da polícia civil, Brenno Carnevale, repleta de verdades sofridas e profundas.. ao mesmo tempo que soa poética e emocionante, vale como uma denúncia e um manifesto, símbolos das misérias politica, financeira e moral destes tempos atuais, não importa se no Rio ou em qualquer lugar do Brasil.

  • luladrao@cadeia2018.com -

    Parece que muitos aqui simplesmente não entenderam o conteúdo da carta: O delegado falou simplesmente que não adianta ficar pressionando a policia por solução rápida do caso, a policia não tem recursos, não tem efetivo suficiente, não existe interesse político em aparelhar a policia e que há muitos outros casos de vítimas mortas que merecem a mesma atenção que Marielle.

  • Lucifer -

    ELE ESTA SIMPLESMENTE FALANDO QUE NÃO ADIANTA FAZER UM CARNAVAL PELA MORTE DE UMA SÓ PESSOA, QUE A VERDADE É QUE OS BANDIDOS SÃO MELHORES QUE O ESTADO. ELES QUANDO QUEREM MATAR MATAM MESMO. QUANDO QUEREM FAZER BADERNA QUEIMAR ÔNIBUS , MATAR POLÍCIA E TOCAR O TERROR FAZEM MESMO E ACABOU. O ESTADO ESTA ACABADO, FALIDO, DOMINADO. CABE AQUI RESSALTAR QUE SAIU NOS JORNAIS O FATURAMENTO DE UMA FACÇÃO CRIMINOSAFICA ENTRE AS 50 MAIORES EMPRESAS NO BRASIL. ENTÃO MARIELE , NÃO ADIANTA VAI FICAR POR ISSO MESMO. INFELIZMENTE AQUI NO BRASIL OS BANDIDOS SÃO MELHORES QUE OS MOCINHOS.

Ler 32 comentários