Depoimento de Salim confirma narrativa de Valério

Embora Salim Schahin tenha dito à força-tarefa da Lava Jato que o empréstimo solicitado por José Carlos Bumlai era para o PT, sem citar Celso Daniel, sua narrativa dos fatos coincide com a de Marcos Valério.

Ele conta que, em meados de 2004, Bumlai foi levado ao banco por Sandro Tordin, um de seus executivos, com o pedido dos R$ 12 milhões. O pecuarista tomaria o empréstimo em nome do PT, pois havia uma “necessidade que precisava ser resolvida de maneira urgente”.

Se era uma dívida de campanha de dois anos antes, por que motivo sua quitação era “urgente”? Seja como for, Schahin conta que autorizou o empréstimo para se aproximar “efetivamente do governo do PT”, abrindo a possibilidade de retorno em negócios e oportunidades futuras.

Houve uma segunda reunião, com a presença de Delúbio Soares, como narrou Valério em 2012. Nessa ocasião, o então tesoureiro do PT reiterou a “urgência” do empréstimo, que deveria ser “concluído o quanto antes”. “Bumlai e Delúbio informaram que, como evidência adicional, a ‘Casa Civil procuraria um dos acionistas do banco e, dias depois, Salim recebeu um telefonema de José Dirceu. ‘A mensagem estava entendida'”.

Como Bumlai não pagou nenhuma parcela do financiamento, Schahim pressionou o pecuarista, que pediu novamente a intercessão de Delúbio. No primeiro semestre de 2005, Valério e Delúbio foram ao banco. “Delúbio explicou que Marcos Valério já estava ajudando o PT e que estaria disposto a nos ajudar na solução do problema”.

Leia os trechos da delação de Salim Schahin. É um tratado histórico da corrupção petista:

“Que, em meados de 2004, José Carlos Bumlai foi trazido ao Banco Schahin por Sandro Tordin um executivo do Banco na época, buscando tomar um financiamento de R$ 12 milhões de reais; que a primeira reunião foi realizada no prédio da Rua Vergueiro, nº 2009, em São Paulo, onde ficava a sede do Banco; que participaram do encontro Sandro Tordim, Carlos Eduardo Schahin, Milton Schahin e José Carlos Bumlai; que o declarante passou rapidamente por esta reunião e lhe foi relatado posteriormente que na ocasião foi apresentado um pedido de empréstimo, alegando-se, inclusive, que se tratava de um pedido do Partido dos Trabalhadores e ele, José Carlos Bumlai, tomaria o empréstimo em nome do Partido, pois havia uma necessidade do PT que precisava ser resolvida de maneira urgente;”

“Que após a reunião, o depoente ponderou que, apesar das duas preocupações que manifestou, deveria conceder o financiamento pois poderia ser útil aos interesses do Grupo, aproximando-o efetivamente ao Governo do PT e abrindo a possibilidade de retorno em negócios e oportunidades futuras; que, no entanto, o valor envolvido na operação era grande demais e o declarante não se sentia confortável para seguir adiante; que dias depois foi realizada uma nova reunião na sede do Banco Schahin, e igualmente participaram Sandro, Carlos Eduardo, Milton e José Carlos Bumlai e, como novidade, Bumlai veio acompanhado de Delúbio Soares; que a presença de Delubio Soares trouxe um pouco mais de conforto ao declarante, tendo em conta que ele, diferentemente de Bumlai, tinha relação direta com o PT; que o depoente passou brevemente pela reunião; que, nesse novo encontro insistiram na necessidade de urgência do empréstimo e foram detalhados os termos do financiamento pretendido; que nessa ocasião o próprio Delúbio Soares confirmou o interesse do Partido para que a operação fosse concluída o quanto antes; que José Carlos Bumlai e Delúbio Soares informaram que, como evidência adicional, a ‘Casa Civil’ procuraria um dos acionistas do Banco Schahin; que, dias depois, o depoente recebeu um telefonema de José Dirceu; que a conversa tratou de amenidades, não abordando a operação de José Carlos Bumlai, mas a mensagem estava entendida;”

“Que desde o primeiro mês já iniciou o inadimplemento, o que foi mantido por todo o período e este fato incomodava muito o declarante e os demais acionistas do Banco; que em função disso e para não gerar o vencimento antecipado da dívida, o empréstimo foi renovado por meio de aditivos em 01/03/2005 no valor de R$ 13.795.589,16, em 04/05/2005 no valor de R$ 14.618.895,69, em 27/07/2005 no valor de R$ 15.776.155,99; que apesar das insistentes cobranças, nenhuma das parcelas foi paga e, de forma a não incorrer em vencimento antecipado do débito, como acima mencionado, foram feitos sucessivos aditamentos ao financiamento, com a incorporação dos encargos devidos ao saldo devedor; que diante da não ocorrência das devidas amortizações do débito, ainda durante o primeiro semestre de 2005, antevendo que os Auditores, e posteriormente o Banco Central, passariam a questionar a qualidade da operação e a exigir provisionamentos, o setor de cobrança do Banco Schahin intensificou as pressões contra Bumlai para que efetivasse a quitação da dívida; que em decorrência disso, Bumlai teria pedido que Delúbio Soares procurasse o Banco Schahin. Assim, ainda durante o primeiro semestre de 2005, o depoente recebeu Delúbio Soares, que veio acompanhado de Marcos Valério e nessa ocasião, Delúbio explicou que Marcos Valério já estava ajudando o PT e que estaria disposto a nos ajudar na solução do problema, mas nenhuma solução foi dada, obtendo nas como resposta nessas oportunidades que o PT estava buscando uma solução para isso”

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