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Entrevista: "Eu não sou burro", diz Luis Carlos Heinze

Senador gaúcho é alvo de representação por quebra de decoro parlamentar, acusado de divulgar notícias falsas na CPI da Covid
Entrevista: “Eu não sou burro”, diz Luis Carlos Heinze
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Ao longo das sessões da CPI da Covid, o senador governista Luis Carlos Heinze (PP-RS) tornou-se um dos principais defensores do chamado “tratamento precoce”, alardeado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Por esse tipo de manifestação, sem apresentar qualquer comprovação científica, Heinze foi alvo de denúncia por quebra de decoro parlamentar, acusado de divulgar notícias falsas. O senador Alessandro Vieira é o autor da representação.

Heinze diz que não divulga notícias falsas e que ele, sim, foi vítima de fake news ao ter seu nome associado à ex-atriz pornô Mia Khalifa. “Nem sabia quem era”, afirmou o parlamentar em entrevista a O Antagonista.

Para o senador gaúcho, que é pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul e espera poder contar com o apoio de Bolsonaro em 2022, suas manifestações expressam “uma versão da história”.

Leia os principais trechos da entrevista:

O senhor acredita mesmo na eficácia desses remédios ou é uma tática de defesa do governo?

Não faço isso pela defesa do governo, mas pela defesa do que acredito. Não tenho ideologia e não estou vendo o aspecto político disso. Não estou preocupado com as eleições de 2022. Estou, sim, preocupado com a forma como atacam as coisas que acredito, como o tratamento precoce. Eu não sou burro.

Mas esse tipo de manifestação desinforma a população e pode passar a imagem de que o senhor é fanático pelo governo.

Não sou fanático pelo governo. Mas quando apresento uma pesquisa considerada fraudulenta pela Universidade de Havard [ensaio de uma empresa chamada Surgisphere Corporation, que não recomendava o uso da cloroquina, alvo de revisão pela revista Lancet] ou quando mostro os problemas da pesquisa em Manaus [sobre superdosagem de cloroquina], estou tratando de um tema de extrema importância. Ninguém debate esse assunto. Esses dois casos são fatos. Eu pesquisei. Mas aí eu citei a ex-atriz pornô que era gerente de vendas da Surgisphere. O que fizeram? Falaram dessa Mia Khalifa. Nem sabia quem era.

Então, o senhor é quem foi vítima de fake news?

Claro. Como é que colocam na minha boca um nome que eu não falei. Eu disse “uma atriz pornô da Surgisphere“. Fui vítima de fake news. Agora, só pode haver um outro interesse por trás da questão da cloroquina: um interesse econômico. Só isso para fazer a OMS ter mudado sua posição. Por que ser contra um remedinho que dá resultado no tratamento da Covid (Nota da redação: não dá resultado.)? Tem que ter um outro interesse por trás disso. Eu acredito no que estou fazendo.

Cientificamente, já está comprovado que a cloroquina não funciona para a Covid, senador.

Veja o seguinte: foi feita a vacinação em Serrana (SP) e a letalidade é de 1,95% com vacinação de toda a população. O que fez o prefeito Cássio Prado [de Porto Feliz (SP)]? Qual a letalidade dele? 1,15%. Será que não tem nada a ver a prescrição da cloroquina com essa letalidade? (Nota da redação: boletim epidemiológico de Porto Feliz aponta que, das 101 mortes registradas no município por Covid, 79 delas foram registradas em 2021.)

Eu peguei 40 municípios que adotaram o “tratamento precoce” e os 40 municípios tiveram a letalidade de 1,45%. A letalidade do Brasil é de 2,80%. Em Rancho Queimado (SC), os caras têm 4 mil habitantes e duas mortes: uma de uma pessoa com 85 anos e outra com 86 anos. A letalidade é quase zero. (Nota da redação: em Rancho Queimado, ocorreram três mortes por Covid. A prefeita Cleci Veronezi (MDB) questiona judicialmente a terceira morte.)

Mas não dá para comparar com cidades com esse número de habitantes, senador.

Então, pega Porto Feliz (SP), com 150 mil habitantes. E pega Chapecó (SC): 300 mil habitantes. Estou dando exemplos e números. Fiz a média de 40 municípios que usaram o “tratamento precoce”.  A letalidade dessas cidades é menor que a média brasileira.

Se os números são tão bons, como o senhor diz, a ciência está errada?

Não é disso que se trata. O Conselho Federal de Medicina autorizou os médicos a prescreverem medicamento “off label”. Foi dada essa oportunidade a eles. Mas algumas sociedades médicas criticam, estão questionando essa decisão. Agora, quando o cara passa o “tratamento precoce” em caso terminal, aí não adianta. Tem que ser até o quinto ou sexto dia de sintomas. Essa é uma discussão médica, não política.

A CPI tem sido política?

Sim, a CPI é política. Estamos falando de eleições: Luiz Henrique Mandetta é citado como potencial candidato, o PT tem candidato, o PSDB tem candidato. É uma guerra política, tchê. Eu estou vendo essa questão. Agora, imagina médicos sendo criminalizados, sendo alvo de bullying por prescrever o “tratamento precoce”. A minha guerra é contra isso tudo.

O senhor realmente acredita em “tratamento precoce”?

Acredito. É a minha posição. Estou defendendo aquilo que acredito. Dizem que eu defendo a indústria da cloroquina? Como? O remédio custa R$ 20. O que vejo é que o medicamento é seguro. O colega senador que é médico [Otto Alencar] dizendo que a cloroquina não funcionava para zika vírus. Mas funciona (Nota da redação: não funciona.). Aí cito o Didier Raoult [conhecido como ‘doutor cloroquina’, mas que admitiu que a droga não é eficaz], o Vladimir Zelenko [defensor do chamado ‘kit-Covid’]… Esse ucraniano está indicado ao Prêmio Nobel. Isso não vale de nada?

Senador, não é possível confirmar a indicação de Vladimir Zelenko ao Nobel.

Mas eu pesquisei. E aparece, sim, o nome dele. Todos esses nomes são sérios. Mas, como você está me dando essa informação, vou checar de novo. Aliás, tudo aquilo que eu falo na CPI, checo com fontes seguras. Não faço, nem divulgo fake news. Alguns jornalistas sérios vieram atrás de mim e me pediram desculpas.

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