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Entrevista: "O tempo está a nosso favor", diz Hartung, sobre construção de 3ª via para 2022

Em entrevista a O Antagonista, ex-governador afirma não ter dúvidas de que os eleitores terão uma ou mais opções para fugir da polarização
Entrevista: “O tempo está a nosso favor”, diz Hartung, sobre construção de 3ª via para 2022
Foto: Fred Loureiro/Secom/Governo do ES

O economista Paulo Hartung, que já foi deputado estadual, deputado federal, prefeito de Vitória, senador e governador do Espírito Santo, acredita que a terceira via vai vingar na corrida presidencial de 2022.

Ele rebate as cobranças para que o grupo, que ele chama de “centro expansivo” (cada dia surge um nome diferente), apresente logo um candidato. “O tempo é curto? Eu acho que o tempo joga é a nosso favor”, disse, em entrevista a O Antagonista.

Hartung, que está sem partido, participa ativamente das conversas nos bastidores para se tentar chegar a uma alternativa a uma nova polarização entre PT e Jair Bolsonaro. O político admite que as vaidades e os projetos pessoais resistem, mas considera as negociações em curso “de alto nível”.

O ex-governador também defende ser possível o surgimento de um candidato não populista, mas pondera que a terceira via precisará ser encarnada por alguém que tenha capacidade de conciliar razão e emoção. Ele avalia que a democracia brasileira, apesar de suas instituições fragilizadas, no entender dele, está “em amadurecimento”.

Leia a íntegra da entrevista:

Vai ter terceira via? E mais: se quer realmente construir uma terceira via ou é tudo jogo político cheio de vaidades e teatro?

Existe a possibilidade de haver uma opção aos dois nomes colocados [Jair Bolsonaro e Lula] no singular ou no plural. Há um esforço muito grande para que seja no singular, para que se tenha um nome. E as conversas estão adiantadas nesse sentido.

Ouso a dizer que, de tudo o que já participei na política brasileira, e participo da política desde a redemocratização, as conversas que estão ocorrendo nos bastidores têm o melhor nível desde sempre. Esse é o lado bom.

Mas, como tudo na vida, tem, sim, o outro lado da moeda. Se a vaidade foi vencida? Se os projetos pessoais foram vencidos? Não. Teremos opções no primeiro turno? Eu respondo: não tenho a menor dúvida de que teremos, sim, e de que isso é bom para a democracia brasileira. Se vamos conseguir unificar o que chamo de um ‘centro expansivo’ ou se vai ser possível lançar um nome representando essa posição ou se vão haver níveis de fragmentação? Não tenho como responder.

Embora as conversas estejam em excelente nível, ainda não se conseguiu derrotar por completo as vaidades e a ideia de projetos pessoais. Não vou fulanizar. Mas, para o bom entendedor, fica claro do que estou falando.

O tempo é curto? Eu acho que o tempo joga é a nosso favor. Temos uma eternidade [até as eleições de 2022]. Não é por falta de tempo [que não vamos construir uma terceira via].

Então, o senhor não acha que a terceira via precisa se apresentar agora?

Claro que não. A polarização de que tanto falam está posta nas conversas dos políticos e, me desculpe dizer, na cabeça de jornalistas, na imprensa. Essa polarização não está posta nas ruas, que é o que interessa.

Nem com as recentes manifestações bolsonarista e da esquerda?

Não. O que está posto nas ruas é que as pessoas querem ser vacinadas, o que está posto nas ruas é que as pessoas querem carteira assinada de novo. O que está posto nas ruas é que quem perdeu renda quer voltar a ter renda. O que está posto nas ruas é isso. A sucessão presidencial está na cabeça de políticos, como uma obsessão, não na cabeça das pessoas.

A má companhia agora [para a construção da terceira via] é a precipitação. O que nós precisamos é ver, entre os vários nomes que existem hoje, qual se conecta mais com a sociedade e qual consegue falar mais com os sentimentos dessa sociedade complexa e conectada.

E, nesse sentido, é possível construir uma candidatura de alguém não populista, de alguém que fuja dessa imagem quase que grotesca de “mito” ou “salvador da pátria”? O Brasil consegue eleger presidentes não populistas?

Dá para construir uma pessoa que tenha um pé na racionalidade, mas que tenha o outro pé na emoção das pessoas. Não dá para ser diferente disso. E isso o ‘centro expansivo’ tem que aprender. Não se pode ficar com os dois pés na racionalidade. Tem que ter um dos pés na emoção, sim. Tem que estar junto, sim, do seu Pedro e da dona Maria. Tem que entender o problema da Amazônia e de quem mora na Amazônia. Tem que mergulhar profundo nesse Brasil complexo. Não dá para ficar somente em conversa de nós com nós mesmos, como cachorro correndo atrás do rabo.

E tem tempo para isso, tem espaço para isso. É só olhar a quantidade de gente que está fora desse debate polarizado, que não se definiu ainda. É uma Avenida Brasil? Não, não existe uma Avenida Brasil, não é uma coisa assim também, mas há um espaço para oferecer alguém a quem procura o diferente. É claro que o diferente tem que se apresentar, mostrando projeto para o país e, insisto, com a razão abraçada à emoção: esse será o ‘pulo do gato’.

As eleições do ano que vem terão nível mais baixo que as de 2018?

No mundo inteiro, eleição não é mais a mesma coisa. Você vê a eleição no Chile, no Peru. Você viu recentemente a eleição nos Estados Unidos. Se você pegar a sequência de eleições mundo afora, é outro tipo de eleição que está ocorrendo. Você tem internet, redes sociais, fake news. É um pacote inteiro, vem tudo junto.

Se já havia problemas de notícias falsas e de coisas covardes em campanhas com as mídias tradicionais, com este mundo de canais de comunicação que temos hoje é preciso estar preparado para enfrentar. Quem for para a disputa tem que ter couro de jacaré para aguentar. E a sociedade vai também, a cada eleição, percebendo que há uma montanha de notícias mentirosas, vai cada vez mais tentando escapar dessas cascas de banana. Há uma curva de aprendizado em curso. Mas não há dúvidas de que ainda passaremos muita raiva. O que não quer dizer que a política esteja fraca. A política está forte. O que estão fracas são as instituições da democracia, que precisam se atualizar.

O senhor não enxerga risco de ruptura institucional, como tantos enxergam em Brasília?

Brasília tem um problema crônico: quando você vai conversar com alguém, grosso modo, esse alguém está pensando no lugar dele, no mandato dele, geralmente. A pessoa não consegue ver a floresta; só vê a árvore, a árvore do próprio interesse.

É claro que temos problemas hoje, que temos ataques às instituições. Mas temos uma sociedade que reage, uma imprensa viva, uma sociedade civil participativa. A nossa democracia não é uma democracia madura, claro, mas ela vem amadurecendo, sim, e vem dando demonstrações disso. Podemos dizer que a nossa democracia não é madura como instituição, mas está em um caminho de amadurecimento.

Palavras e gestos de Jair Bolsonaro são somente bravatas?

Não vou fulanizar. Genericamente, eu diria que seria bom que certas atitudes e palavras exóticas não fossem tomadas e ditas. Mas a vida é como ela é, temos que conviver com isso. Quando chegarmos a 2022, a população terá a chance de olhar para os projetos colocados e avaliá-los.

Os americanos também viveram angústias assim [temores de ruptura institucional] recentemente, mas chegou o momento da eleição, houve uma disputa, uma disputa duríssima, e o Joe Biden colocou a mão na taça e virou a chave da política por lá. Tanta gente gosta de olhar para os americanos, então olhem para eles, temos lá um exemplo no qual a democracia, com falhas e imperfeições, foi funcionando e está funcionando. Agora, obviamente, o Biden está sendo desafiado a governar.

O importante é que o país tenha opções, opções e debates. O debate faz a evolução de posições políticas. Quando você restringe o debate, quando você resume a política a ‘cara ou coroa’, isso é ruim. Quem torce pela democracia no Brasil tem que ampliar o debate, tem que sair do ‘a’ e do ‘b’.

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