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Especialista diz que governo não conseguirá mudar imagem sem reduzir desmatamento este ano

Especialista diz que governo não conseguirá mudar imagem sem reduzir desmatamento este ano
Foto: Alan Santos/PR

Qualquer que seja a participação do Brasil na Cúpula de Líderes sobre o Clima, que começa nesta quinta (22), sua posição no mundo não mudará sem reduzir o desmatamento na Amazônia ainda este ano. A avaliação é de Eduardo Viola, professor de Relações Internacionais da UnB e especialista em política internacional sobre mudanças climáticas.

“Não tem saída. A situação do Brasil no mundo só muda mesmo se tiver uma redução significativa do desmatamento na Amazônia este ano. Se não, não tem mudança. O desprestígio gigantesco internacional do Brasil continuará”, disse Viola, em entrevista a O Antagonista.

Para o professor, o país tem capacidade de reduzir o desmatamento ainda este ano, antes da temporada de queimadas no segundo semestre. Porém, “uma coisa é a capacidade objetiva, outra coisa é se isso é realizável por um governo como o de Bolsonaro”.

“E aí eu te diria que pelas características do governo, pelas características da base eleitoral do Bolsonaro – desmatadores, indústrias de madeira ilegal, garimpeiros ilegais, invasores de terras indígenas – são todos da base de Bolsonaro. Por isso que não dá para imaginar um esforço concentrado.”

“Um novo governo”, disse, “com uma orientação muito diferente, sim, poderia se concentrar, e [a redução do desmatamento] é viável totalmente, do ponto de vista das capacidades materiais”.

Viola acrescenta que o Brasil já mostrou, nos anos de 2005 a 2012, ser capaz de reduzir drasticamente o desmatamento com recursos próprios. “Reduzir desmatamento não é caro.”

Para ele, a cúpula organizada por Joe Biden nesta semana pode estimular os países a anunciarem metas mais ambiciosas na próxima conferência da ONU sobre o clima, a COP26, que será realizada em novembro em Glasgow, na Escócia.

“Para o governo americano, tentar mudar a posição do Brasil é algo relevante, porque o Brasil é um país muito importante, particularmente no ciclo global do carbono”, acrescenta.

Nos bastidores, o governo americano tem comunicado às autoridades brasileiras que gostaria de ver uma redução do desmatamento ainda este ano, o que para Viola é “totalmente contraditório” com o plano apresentado pelo vice-presidente Hamilton Mourão na semana passada.

O plano de Mourão tem como meta manter o desmatamento ‘apenas’ 15% maior do que quando Bolsonaro tomou posse.

Segundo Viola, o governo americano tem que adotar um discurso encorajador, positivo, com os países “recalcitrantes”, como o Brasil. “Agora, o que realmente o governo americano avalia sobre o que pode acontecer com Bolsonaro é muito distinto”, afirma.

“No governo Biden, há uma clara posição de só contribuir financeiramente com o Brasil no caso de redução significativa prévia do desmatamento”. A posição do governo Bolsonaro até agora é o contrário: pedir o dinheiro estrangeiro antes de começar a reduzir o desmatamento.

Para Viola, a realização da cúpula por Biden é um gesto “muito forte, porque os Estados Unidos são o único país que saiu do Acordo de Paris”.

O texto desse acordo foi negociado na COP21, em 2015. O acordo foi assinado pelo governo Obama, mas Trump tirou os EUA do acordo; Biden já reverteu a decisão. “Até Bolsonaro havia falado durante a campanha eleitoral e logo depois que podia sair do Acordo de Paris, mas depois voltou atrás”.

O professor diz ainda que a cúpula também servirá para Biden mostrar ao mundo uma nova imagem e posição dos Estados Unidos sobre mudanças climáticas, além de anunciar aos eleitores americanos que o país está reconquistando o prestígio internacional.

Para Viola, será especialmente interessante acompanhar quais líderes mundiais dos 40 convidados vão participar da cúpula, e o que vão dizer. Entre os convidados estão os líderes de Alemanha, Argentina, Chile, China, Colômbia, França, Índia, Itália, Jamaica, Japão, México, Reino Unido e Rússia.

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