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"Fazer da religião instrumento de guerra política beira o absurdo"

Presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib) acrescentou que, "no caso do judaísmo, o ponto tem desdobramentos ainda mais amplos"
“Fazer da religião instrumento de guerra política beira o absurdo”
Foto: Pixabay

Neste 6 de Setembro, quando os judeus comemoram o Ano Novo, Cláudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), disse que “fazer da religião um instrumento de guerra política beira o absurdo”.

“A separação Igreja-Estado é uma doutrina política e legal que estabelece que o governo e as instituições religiosas devem ser mantidos independentes uns dos outros”, afirmou também, em artigo enviado a O Antagonista.

Sem citar o bolsonarismo, Lottenberg acrescentou que “alguns, na inobservância e no desconhecimento da maioria, querem maquiar esses princípios, politizando a temática religiosa” e que, “no caso do judaísmo, o ponto tem desdobramentos ainda mais amplos”.

Leia a íntegra do artigo:

“‘Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’. A passagem bíblica nos ensinou que honrar a Deus não significava desonrar o imperador e, portanto, cabe pagar ao Estado pelos serviços prestados aos cidadãos, tais como organização da sociedade, proteção policial, boas estradas e infraestrutura, entre outros. A separação Igreja-Estado é uma doutrina política e legal que estabelece que o governo e as instituições religiosas devem ser mantidos independentes uns dos outros. A expressão se refere mais frequentemente à combinação de 2 princípios: secularismo do governo e liberdade religiosa.

Alguns, entretanto, na inobservância e no desconhecimento da maioria, querem maquiar esses princípios, politizando a temática religiosa. Fica patente que a separação entre o eu indivíduo e o eu líder de uma comunidade nem sempre é tarefa simples. Não obstante, preferências individuais podem ser guardadas mediante apoio de maiorias. Mas daí para querer politizar a religião existe uma grande diferença. A religião tem suas expressões éticas e muito colabora em assuntos da sociedade que merecem avaliação e validação mais ampla. Mas a título de fazer da religião um instrumento de guerra política passamos a beirar o absurdo.

No caso do judaísmo, o ponto tem desdobramentos ainda mais amplos. O cenário protagonizado por alguns vem criando sérias e graves interpretações. O judaísmo enquanto religião respeita o pluralismo individual, e as opções de natureza política convivem dentro da mais ampla diversidade.

Mesmo em Israel há judeus de esquerda, judeus de direita, judeus liberais, judeus mais ou menos conservadores. E, dentro dessas matizes, a religião também tem natureza diversa, sendo que a ortodoxia se inclina de forma diferente em cada uma dessas correntes. É falsa a ideia de que os judeus de forma consensual apoiam uma determinada linha de governo. Ao contrário, essa identificação plena não existe. Os valores judaicos são instrumentos fortes e presentes dentro de uma cultura que respeita o contraditório e que, de forma alguma, sobrepõe-se aos direitos individuais e aos julgamentos das diferentes opções. Portanto, é um grave erro imaginar que exista qualquer beligerância de natureza política pautada por um ideário judaico religioso. Um absurdo.

Temos assistido com preocupação ao desejo maquiado de alguns projetando essa mistura de cenários. Entretanto, reafirmamos que somos plurais e respeitamos todos, da mesma forma que queremos nos fazer respeitar. Nossa identidade com o Estado de Israel é inegociável, mas nem ela pode permitir que generalizações sejam feitas em nosso nome. A democracia é parte de nosso ideário e dentro dela o respeito a liberdade é regra que dentro da lei não pode cercear o exercício de todo e qualquer cidadão. Misturas que visem confundir não serão por nós aceitas.”

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