Jair Bolsonaro e o senhor embaixador

Jair Bolsonaro e o senhor embaixador
Isac Nóbrega/PR

Num dia em que aparentemente faltou tomar remédio, Jair Bolsonaro, em cerimônia no Palácio do Planalto, dirigiu-se ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, com as seguintes palavras:

“Assistimos a um grande candidato a chefia de Estado (Joe Biden) dizendo que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, ele vai levantar barreiras comerciais contra o Brasil (…) Apenas na diplomacia não dá (…) Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora.”

Ao ouvi-las, pensei que Bolsonaro talvez cogite declarar guerra aos Estados Unidos, para obter alguns trocados, assim como fez o personagem de Peter Sellers em O rato que ruge. No filme, o governante do fictício Grão-Ducado de Fenwick resolve guerrear com os Estados Unidos, a fim de que, um vez derrotado, o pequeno país escape da bancarrota. Explica-se: ele conta com a ajuda financeira americana para tirar Fenwick das cordas, da mesma forma que ocorreu com Alemanha e Itália depois da Segunda Guerra, por meio do Plano Marshall. Só que, inesperadamente, Fenwich vence a guerra contra a maior potência militar que o mundo já conheceu.

O filme é uma comédia deliciosa, ao contrário das encenações de Bolsonaro. O teatrinho oscila entre macabro e ridículo, a depender do tema. Imaginar que o presidente do Brasil, um país militarmente insignificante, possa ameaçar com “pólvora” os Estados Unidos da América pertence ao extremo do ridículo. De qualquer forma, chama atenção o fato de o embaixador americano em Brasília, Todd Chapman, ter postado no Twitter, logo depois da fala de Bolsonaro, a mensagem que se segue:

“O Destacamento de Fuzileiros Navais na Embaixada e nos Consulados dos EUA compartilha uma longa história e uma relação importante e duradoura com a diplomacia que nos permite construir com segurança uma relação bilateral mais forte com o Brasil. Happy Birthday.”

O “feliz aniversário” foi para os 245 anos de nascimento da criação do corpo de fuzileiros navais americanos. Acompanha o tuíte um filmete com as legendas:

“Fundado em 1775, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos é o maior do mundo.”

“Estão sempre de prontidão para responder de forma rápida, seja por terra, ar ou mais.”

“Em 245 anos, os fuzileiros navais travaram batalhas para defender a constituição americana, proteger seu povo e estabilizar o mundo em tempos de crise.”

“Estão presentes em vários países atuando na segurança das missões diplomáticas, inclusive no Brasil, de onde também celebram essa data.”

Ao final, o embaixador Todd Chapman aparece para fazer o elogio dos fuzileiros navais americanos presentes em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, sedes da embaixada e dos principais consulados dos Estados Unidos no país. Ele também enaltece o papel deles “no forte relacionamento bilateral com o Brasil”.

Foi coincidência, obviamente, o filmete já estava pronto de antemão. Bolsonaro apenas teve a infelicidade de falar a asneira da pólvora na data de aniversário dos fuzileiros navais americanos. Mas o tuíte de Todd Chapman não deixa de servir de advertência para extremistas bolsonaristas que tenham a brilhante ideia de ameaçar de alguma forma os postos diplomáticos americanos, depois de oficializada a vitória de Joe Biden. Existe maluco para todo e qualquer serviço, como sabem bem os Estados Unidos — que, só para esclarecer, não pertencem a Donald Trump e os seus seguidores, assim como o Brasil não pertence a Bolsonaro e a sua turma. O tuíte do embaixador, portanto, adquiriu significado inesperado. Tudo dentro da maior amizade.

Os ratos da Fenwick brasiliense podem até rugir, mas continuam a ser ratos. Não há risco de ganharmos nada brigando com os americanos.

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