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Jungmann critica "senso comum" de que prender bandido resolve problema da segurança

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Raul Jungmann criticou o que chamou de “senso comum brasileiro” de que prender bandido resolve o problema da segurança pública.

No dia em que Michel Temer pode assinar mais um decreto de indulto de Natal, o ministro da Segurança Pública disse, em entrevista à Jovem Pan:

“O que vocês não se dão conta é de que os 726 mil presos que você tem dentro do país estão sob comando em sua maioria das facções criminosas, ou seja: do PCC, do Comando Vermelho, dos Amigos dos Amigos, do Terceiro Comando da Capital, dos Guardiões do Norte, do Sindicato do Crime, da Família do Norte. Vocês não se dão conta de que cada vez que você coloca alguém dentro de um presídio – e você fica contente com toda a razão, porque tira um bandido da rua –, ele vai simplesmente, para poder sobreviver, para poder continuar vivendo, já que, sendo uma instituição estatal, o próprio Estado não garante a vida de quem é preso, ele tem que jurar fidelidade a uma facção. E ele vai sair um dia. E quando ele sair um dia, ele é um escravo de uma facção. Então olhar a criminalidade e a violência só da rua até a porta do sistema prisional, é esquecer que o que acontece na rua – a bala perdida, o tráfico, o sequestro – é determinado de dentro do sistema prisional.

Então o que você está fazendo? Você está simplesmente tirando alguém que está com uma trouxa de maconha, ou que está com uma pedra de craque, ou que fez um furto de uma bicicleta, por exemplo – evidentemente que é muito diferente do crime de sangue, do crime hediondo –, está botando ele dentro do sistema prisional, para quando ele sair ele ser exatamente um representante do PCC. Ou seja, repetindo: o problema da segurança não se esgota entre a rua e o portão do presídio. Tem que pensar o que acontece dentro do presídio.

Não se trata aqui de passar a mão na cabeça de bandido e botar bandido para a rua; se trata de entender que, se você tem todo esse Exército do crime organizado, que é comandado pelas facções dentro de 1.400 unidades prisionais brasileiras, e se você não olha para isso, e se você não resolve o problema do predomínio das facções criminosas dentro do sistema prisional, você muitas vezes pode estar colocando dentro dele, e fazendo aquele que cometeu um crime, um delito, muito pior, e ele vai voltar para a rua e vai novamente reincidir e dessa vez muito pior. Então olhar o problema e dizer ‘ah, não, vamos tirar todo mundo da rua, bota todo mundo lá pra rua’ é muito fácil, é muito bom, só que tem um detalhe: a dinâmica do que acontece na rua é determinada de dentro dos presídios e ou você resolve o problema do que acontece dentro dos presídios, ou você não resolve o que acontece na rua, que aparentemente você acha resolvido, porque você jogou ele dentro do sistema prisional.

Então olhamos no conjunto: é muito importante mais polícia, mais armas, mais carros, tudo isso eu não discuto. Agora, se você não olhar para dentro do sistema prisional, que tem hoje 70 facções, que é controlado pelo sistema criminoso, e achar que você está resolvendo o problema apenas porque jogou dentro do sistema prisional, me desculpe, mas você está profundamente errado.”

Confrontado com o argumento de que não é a população vitimada pelos criminosos que não se dá conta, mas que é o Estado que precisa cuidar melhor dos presídios, Jungmann respondeu:

“Concordo. Mas o que acontece? Você já viu alguém se eleger pedindo votos para melhorar o sistema prisional? Qual foi a discussão que houve sobre o problema que eu acabei de colocar aqui? E eu não estou colocando ele porque eu gosto dele. Eu estou colocando porque eu tenho dados estatísticos na mão. Eu sei que a população se sente feliz, gratificada, quando se tira bandido da rua. Eu não estou discutindo isso, eu estou discutindo que ninguém fala do que tem dentro do sistema prisional e que hoje 40% dos presos que estão lá dentro não tem nenhuma condenação. Nenhuma condenação, porque o sistema judiciário não tem velocidade para fazer isso. Então 292 mil dos 726 mil presos hoje não tem nenhuma condenação. Então como o sistema prisional não dá voto, não tem charme, ninguém na política fala dele, o que acontece é a desinformação, enquanto que você está simplesmente cevando um monstro para nos devorar.”

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