O "Dia D" contra a Covid-19 vai inaugurar oficialmente a "ciência bolsonarista"

O “Dia D” contra a Covid-19 vai inaugurar oficialmente a “ciência bolsonarista”
Reprodução/TV Brasil

Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello, o ministro da Saúde que já era antes de sê-lo, vão promover no dia 3 de outubro um “Dia D” contra a Covid-19, nas unidades básicas de saúde. De acordo com o Estadão, o objetivo é divulgar orientações sobre o que julgam ser o tratamento precoce da doença, inclusive com a distribuição do que já está sendo chamado de “kit covid”. Ele é composto de hidroxicloroquina , azitromicina e ivermectina. Todos remédios que se mostraram inúteis contra a doença.

O jornal paulistano apurou que, durante a semana, Pazuello promoveu reuniões de planejamento do grande evento e que o empresário Carlos Wizard, cujo nome chegou a ser cotado para ser secretário da pasta da Saúde, participa da organização do troço. Wizard is on the table. Numa das reuniões com gestores públicos, Pazuello disse que o “Dia D”  é  um “esforço nacional que o SUS está fazendo para divulgar melhores práticas, para que possamos salvar mais vidas, acrescentando que há “pessoas sendo iludidas no País”, porque “até hoje você encontra cartazes dizendo: está com covid, fique em casa até ter falta de ar.” A ideia é que Bolsonaro faça um pronunciamento em cadeia nacional no dia 2 para divulgar o evento.

Trata-se de ação de marketing de um presidente que se recusou a coordenar o combate à pandemia. Ações de marketing não são necessariamente ruins, cuidados precoces são recomendáveis, mas o tal “Dia D” é uma infâmia descomunal porque vai desovar medicamentos sem indicação para Covid-19 na caixa de remédios do cidadão iludido por propaganda enganosa. O governo que resolveu promover a charlatanice de maneira acintosa, passando do discurso abilolado à ação irresponsável. O único medicamento existente que provou ter alguma eficácia no tratamento da doença pandêmica que já matou quase 140 mil brasileiros é o antiviral remdesivir. Tanto que foi o remédio escolhido para ser utilizado, em caso de necessidade, nos testes de vacinas que começarão em janeiro no Reino Unido, mais precisamente numa clínica em Londres, com voluntários que serão inoculados com o vírus, como noticiamos há alguns dias.

Para completar o quadro, a notícia do Estadão foi publicada na sequência da revelação, pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, de que Bolsonaro achava que o vírus era uma arma biológica chinesa para que a esquerda voltasse ao poder na América Latina. Ou seja, a China resolvera infectar o mundo para derrubar o presidente brasileiro.

A sociopatia de Bolsonaro está associada à paranoia mais delirante e ambas se combinam para entrar num desvio já verificado em regimes autoritários de triste memória: o da ideologização da ciência. Havia uma “ciência ariana” na Alemanha de Hitler e uma “ciência socialista” na União Soviética de Stálin. No seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente criticou a politização do vírus, mas é ele quem o politiza — agora sabemos até sobre a “arma biológica” da China, não é mesmo?. Para além do marketing, o “Dia D” vai inaugurar oficialmente a “ciência bolsonarista”, outra prova de que, no Brasil, florão deste triste subcontinente, a história se repete como tragichanchada.

Leia mais: OS ENCONTROS SECRETOS DE BOLSONARO COM O 'ANJO'
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