O que muda no país do DEM? Nada

O que muda no país do DEM? Nada
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

As contabilidades partidárias depois de eleições são tão inevitáveis quanto barulho de gente mastigando pipoca em salas de cinema. Na de hoje, pós-segundo turno dos pleitos municipais, a constatação é que o DEM, aquele partido que Lula queria “extirpar da política brasileira” há quinze anos, conquistou 74% de prefeituras a mais que em 2016, número verdadeiramente espantoso. Agora, o partido de Rodrigo Maia tem 464 prefeituras, contra as 266 de quatro anos atrás.

Há uma década e meia, depois de Lula dizer que queria extirpar o DEM do quadro nacional como se a agremiação fosse um tumor da “direita raivosa”, Rodrigo Maia respondeu que a fala de Lula mostrava “desequilíbrio” e que o então presidente da República se aproveitava “de sua popularidade para agredir, tentar pisar em seus adversários”, e que o petista devia “estar com algum problema em relação aos últimos episódios”, em referência ao escândalo do mensalão e congêneres. Rodrigo Maia também afirmou na ocasião que Lula queria um “Congresso submisso ao PT” e que o discurso dele refletia “ódio pessoal que não cabe em um estadista, um homem que chegou onde ele chegou”. Sim, você já viu tudo antes.

A pipoca, na verdade, é para as reprises de um único filme, com algumas cenas ligeiramente novas, mas não determinantes para o final da história.

Quinze anos depois, o PT sofreu a sua maior derrota em eleições municipais: ficou pela primeira vez sem nenhuma prefeitura de capital e perdeu o comando em 71 cidades. Quinze anos depois, o presidente da República continua a mostrar desequilíbrio por causa de suspeitas de corrupção, não importa o sinal ideológico trocado. Quinze anos depois, o DEM de Rodrigo Maia não só escapou da extirpação como foi a agremiação que mais cresceu em número de prefeituras, e agora está à frente de quatro capitais. Como se não bastasse, também domina as presidências de Câmara e Senado, com chance de ver autorizada pelo Supremo Tribunal Federal a reeleição tanto de Maia na primeira como de Davi Alcolumbre no segundo.

No cômputo geral, para além do DEM, o MDB e o PSDB continuam bem na fita, em que pesem algumas perdas, e o antigo PP e o PSD saíram maiores do que em 2016. Assim como o PT, todos esses partidos se viram implicados na Lava Jato, em maior ou menor grau. E todos saíram das eleições deste 2020, ano tenebroso na vida coletiva, proclamando que venceram o discurso de ódio e irresponsável em relação à pandemia de Jair Bolsonaro e que as suas vitórias representam o triunfo da política.

Na verdade, a vitória de todos eles representa o triunfo da estruturas chefiadas pelos caciques de sempre, que determinam quem leva o maior quinhão do fundo partidário em cada cidade e estado. Representa o triunfo de um sistema eleitoral que impõe ao cidadãos os nomes de sempre ou os herdeiros dos nomes de sempre, sem dar espaço para que possam emergir candidatos que representem os reais interesses da população em todos os níveis de administração (o voto distrital pode não ser panaceia, mas diminuiria significativamente essa distorção). Representa ainda a esqualidez de uma massa de eleitores obrigada a preocupar-se com o pão de hoje, e não com o país de amanhã, em fechamento ao círculo vicioso que completa outra volta a cada dois anos nas urnas. Na mais feliz das hipóteses, apenas se evita o pior, elegendo o ruim.

Comemore-se a derrota do PT e o aborto do bolsonarismo, mas haverá sempre um DEM (e um MDB, um PSDB, um PP com outro nome, um PSD e outras siglas do coronelato) para imobilizar o Brasil onde o país está desde há muito, com melhoras inerciais aqui e acolá.

Daqui a quatro anos, as nossas cidades continuarão a ser inabitáveis dentro dos padrões mínimos de civilização, espelhando os estados e a nação. Quem permanece extirpado de um sistema político e eleitoral destinado a manter o status quo é o cidadão brasileiro. Façam as contabilidades partidárias, mas não apostem no contrário. O que muda de essencial no país do DEM e correlatos? Nada. Quem ganhou foi a mesma gente; quem perdeu também.

 

 

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