O que se espera dos militares é a defesa da democracia. Desta democracia

No início do governo de Jair Bolsonaro, os militares eram vistos como capazes de moderar os arroubos do presidente da República. Inclusive por este site.

Hoje não mais. Como registrado mais cedo aqui, Merval Pereira resumiu:

“O presidente Bolsonaro está levando parte das Forças Armadas a uma aventura que não se sabe como terminará. A idéia equivocada de que haveria por parte dos militares disposição de controlar os ímpetos de Bolsonaro já foi há muito superada.”

De fato, a afinidade ideológica entre o capitão e os generais sempre foi grande, como aponta o articulista. Mas o generalato parecia ser menos radical do que o entourage original de Bolsonaro. Os militares pareciam dispostos a reestrear na vida política nacional de maneira mais contemporânea, por assim dizer. A impressão se esmaece.

Bolsonaro voltou a cercar-se de militares no Planalto, num movimento coincidente com o aprofundamento das investigações sobre a atuação do seu filho mais velho, Flávio, como deputado estadual no Rio de Janeiro. Some-se a isso a fala de que venceu as eleições presidenciais no primeiro turno, mas que não levou porque houve fraude. Disse que apresentará provas. Esperemos. Se não forem consistentes, a declaração será considerada loucura, mas com método, a fim de deslegitimar processos eleitorais futuros que não o beneficiem. Se as provas forem consistentes, puna-se com rigor os responsáveis, porque atentaram, mais do que contra Bolsonaro, contra o pilar da democracia: o voto.

O que se espera dos militares é a defesa intransigente da Constituição e do regime democrático que ela estabelece e rege. Desta democracia, portanto, por mais imperfeita que ela seja. O que se espera do Congresso é que ele não continue a dar pretextos a eventuais aventuras de granadeiros e simpatizantes aloprados contra a Constituição. Como o do tal “parlamentarismo branco”.

Quanto a Bolsonaro, ele mesmo, quem melhor o definiu foi o general Villas Bôas, como lembra Merval Pereira:

“Ainda durante a campanha, quando o General Villas Bôas ainda era o Comandante do Exército, alguém, numa roda de conversa em seu gabinete em que estavam generais que hoje integram o governo Bolsonaro, perguntou por que os militares não controlavam um pouco os arroubos do então candidato. Villas Boas deu uma gargalhada e disse: ‘Ele é incontrolável’.”

A única forma de controlar o inquilino do Palácio do Planalto, qualquer que seja ele, é por meio da democracia, como demonstrado mais de uma vez desde 1989. A mesma democracia que foi forte o suficiente para possibilitar a Bolsonaro ser eleito presidente, não esqueçamos. Presidente legítimo, até prova em contrário.

 

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