Olavo: "Falta o elemento da vocação na cultura brasileira"

Na entrevista com Olavo de Carvalho para O Antagonista, Felipe Moura Brasil citou dois artigos do filósofo sobre a tragédia vocacional brasileira – “Vocações e equívocos” e “O abandono dos ideais” – e pediu que ele falasse sobre a diferença entre fazer algo por prazer ou por dinheiro, como é costume no país, e fazer por vocação.

OLAVO DE CARVALHO: A vocação é a coisa principal na vida, porque a maior parte do seu tempo você vai gastar trabalhando. Então, se você não está realizado no seu trabalho, você não vai se realizar em parte alguma. O que é este realizar-se? É você ter prazer o tempo todo? Não é possível. Por exemplo: eu tenho um grande amigo chamado Juan Alfredo César Müller, que era um gênio da psicologia clínica. Ele ficava o dia inteiro conversando com louco. Isso é um prazer? Claro que não, isso é um sofrimento atroz. Mas ele tem amor a isso. Isso, para ele, é mais importante do que a vida. Ele morre por isso. E isso é a vocação. Aquilo que é mais importante do que você. Aquilo pelo qual você morreria, como Cristo na cruz. Você acha que Cristo estava muito feliz de estar lá pregado na cruz? Ele fez por prazer ou por dinheiro? O resumo da humanidade é Jesus Cristo. Ele está lá pendurado na cruz é por amor. Não é nem por prazer, nem por dinheiro.

FMB: Isso vale também para as relações amorosas.

OLAVO DE CARVALHO: Se fosse para fazer por prazer, eu abriria um puteiro! (Risos) Porque aí teria todas as putas à minhas disposição 24 horas por dia e ainda ganharia dinheiro com elas. Mas não é o prazer, e também não é o dinheiro, é o amor por uma coisa que é mais importante do que a sua vida, que vale mais do que a sua vida. Isso é a verdadeira vocação. Nesse trabalho que eu estou fazendo, que é puramente vocacional, não tem nenhuma concessão ao prazer ou ao dinheiro, tem momentos de grande sofrimento e tem momentos de grande alegria. Para mim, é a mesma coisa: o amor é o mesmo. É como você casar com uma pessoa. O seu casamento vai ser só alegrias? Não! Vai ser tristeza, você vai compartilhar as tristezas. Então aquilo é uma coisa valiosa para você. Então não pode ser submetido ao critério do prazer ou do dinheiro. Mas este elemento falta na cultura brasileira. Eles [a maioria dos brasileiros] não sabem o que é vocação.