Você, leitor, tem medo do "guardião" ao seu lado?

Marcelo Crivella não é um personagem que comova os leitores deste site. Dá para entender: o sujeito não tem a menor graça. Num campeonato de carisma, ele empataria com Geraldo Alckmin. Mas é necessário indignar-se muito com esse escândalo dos “Guardiães do Crivella”. Para evitar que a precariedade dos hospitais municipais do Rio de Janeiro fosse para o noticiário, o prefeito usava de uma espécie de milícia nas portas dos hospitais, os tais “guardiães’. Eles intimidavam cidadãos que se dispunham a falar com repórteres da Rede Globo — que, por sua vez, eram também constrangidos no exercício da sua função.

Nos começos da nossa triste República, antes de serem fechados, jornais que desagradavam ao governo eram empastelados. Ou seja, uma turba de mercenários e policiais invadia as redações, quebrava tudo e agredia os jornalistas. No regime militar, jornais eram censurados e jornalistas foram presos, torturados e mortos. Hoje, como (ainda) não dá para empastelar jornais e matar jornalistas, a imprensa vem sendo atacada intensamente nas redes sociais e pelo presidente da República. Jair Bolsonaro chegou à delicadeza de dizer que tinha vontade de encher de porrada a boca de um repórter.

Crivella, no entanto, foi além: ele organizou uma espécie de milícia para cercear o trabalho jornalístico. Não fosse a própria Rede Globo ter denunciado, ela continuaria a funcionar impunemente. O que permitiu que Crivella fosse tão ousado? O espírito do tempo contra a imprensa forjado por militantes bolsonaristas e, antes deles, os petistas. Foi o PT, nunca esqueçamos, que começou a fazer campanha contra os jornais e revistas que denunciavam os seus crimes. Os bolsonaristas elevaram a criação petista à condição de arte, e eis que agora ser jornalista tornou-se quase um crime aos olhos dos fanáticos de ambos os extremos do espectro político. Se jornalistas são sempre mentirosos, manipuladores e agentes do inimigo, nada mais natural que possam ser ameaçados fisicamente. Está aberto, assim, o caminho para que milicianos pagos com dinheiro público possam passar das palavras à ação concreta.

Na criação desse espírito do tempo contra a imprensa, a Justiça brasileira dá a sua parcela de contribuição. O STF mantém há um ano e meio um inquérito sigiloso que já propiciou a censura à Crusoé a este site; na Justiça de Brasília, a bolsonarista Bia Kicis conseguiu uma liminar para tirar o seu nome de uma reportagem da Crusoé que apenas mostrava como ela perdera o ímpeto para defender a prisão em segunda instância. Se nem a Justiça garante mais a liberdade de imprensa, está aberto o caminho para a intimidação judicial em larga escala.

Não pense você que, pelo fato de eu ser jornalista, estou sempre do lado da categoria. Sou avesso à camaradagem típica da profissão, aquela que “corrói as mais belas almas”, como escreveu Honoré de Balzac, no que sou plenamente correspondido por quase todos os meus colegas. Em geral, quando escrevem sobre episódios da imprensa nos quais fui personagem, ou eles me avacalham ou nem sequer sou citado. Não me vitimizo, isso só reforça a minha convicção de que fiz muito bem em não ser camarada de ninguém. E é justamente por manter essa distância prudente que posso julgar muitos dos meus desafetos excelentes jornalistas. Eles trabalham duro e, no mais das vezes, conseguem manter a objetividade possível na apuração e confecção das suas reportagens. Não é um trabalho fácil, acredite, inclusive porque se pode usar a verdade para dizer mentiras.

O jornalismo pode não ser a mais bela das profissões, mas ela é necessária. Mesmo quem odeia jornalistas informa-se direta ou indiretamente pela imprensa. Não tem jeito, alguém tem de fazer o serviço. Ele é sujo de vez em quando? Certamente. Mas as sujeiras eventuais não invalidam a a realidade de Sua Excelência, o Fato, estar permanentemente ali na nossa frente, mesmo quando cercada da vassalagem meramente opinativa. O problema é quando a opinião tenta apagar completamente o fato, como vem ocorrendo hoje em dia nas franjas bolsonaristas e petistas que contaminam o cotidiano com o seu pseudojornalismo.

Os “Guardiães do Crivella” são, talvez, o aspecto mais espantoso deste momento. Nada o supera. Como publicamos mais cedo,  testemunhas do esquema contaram ao G1 que os integrantes do grupo, pagos com dinheiro público para intimidar cidadãos e repórteres, sofriam ameaças de Marcos Paulo de Oliveira Luciano, o ML, assessor especial do gabinete do prefeito e chefe dos “guardiães”, e de Mariana Angélica Toledo Gonçalves, apontada como braço direito dele. É assim também na máfia: brucutus ameaçam brucutus que ameaçam gente honesta. Uma das testemunhas disse: “Todo mundo tem medo da Mariana e do Marcos Luciano”.

Jornalistas de verdade não têm medo de Marianas e Marcos Lucianos de qualquer tipo. Você não precisa gostar de jornalistas, mas é preciso dar esse crédito a eles. A menos, é claro, que você também tenha medo da Mariana e do Marcos Luciano que estão ao seu lado. Não tenha: por trás deles só existem Crivellas que podem ser denunciados pela imprensa.

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