A fama do Brasil no filme “Timbuktu”

O Antagonista acha que a imprensa brasileira dedica páginas demais a cinema. Você lê resenhas lindamente escritas e, quando vai assistir ao filme, é uma porcaria. Simples assim. De vez em quando, há exceções como “Timbuktu”, do diretor mauritano Abderrahmane Sissako.

O tema do filme é a cidade de Timbuktu, no Mali, enquanto esteve ocupada por fundamentalistas islâmicos em 2012, antes que a França os expulsasse de lá no início do ano seguinte. Era proibido ouvir música e jogar futebol. Mulheres tinham de usar luvas, além dos véus de praxe. Os julgamentos eram sumários. As menores infrações à Sharia, o código de leis islâmico, vinham punidas com chibatadas. As maiores, como o adultério, terminavam em apedrejamentos.

Belíssima, declarada patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, Timbuktu teve monumentos destruídos pelos bárbaros islâmicos. O registro do diretor Abderrahmane Sissako, contudo, é mais intimista. Detém-se na tragédia de uma família e em histórias individuais auxiliares. É uma narrativa delicada sobre a delicadeza conspurcada pela irracionalidade. Não sai da memória a cena em que jovens simulam uma partida de futebol sem bola, uma coreografia sobre como a vida pode resistir nos meios mais hostis a ela. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 2014. Esperemos que ganhe o Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano.

O Brasil também está presente em “Timbuktu”, no diálogo entre dois homens sobre o banido e ainda assim onipresente futebol. Um deles diz que o campeonato mundial vencido pela França, em 1998, não foi por mérito, mas porque a seleção brasileira fez corpo mole. “A França deu um carregamento de arroz em troca dos três gols que marcou na final, o Brasil é muito pobre”, diz o sujeito.

Não importa que não seja verdade. Essa é a nossa fama: somos miseravelmente corruptos.

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