Agamenon: "A passeata dos 300 mil"

Agamenon: “A passeata dos 300 mil”
Agamenon/O Antagonista

Em maio de 1968, os estudantes franceses, revoltados com a obrigatoriedade do banho, resolveram ir pra rua matar aula e quebrar tudo. Por isso mesmo, 68 entrou para a História, mas eu não vi nada porque estava no meio de um 69. Enquanto isso, no Brasil, para protestar contra a ditadura, intelectuais e artistas imitaram os franceses na histórica passeata dos 100 mil sem tomar banho. Durante esse inesquecível evento histórico, tentei desesperadamente pegar a Leila Diniz e a Odete Lara, mas o Chico Buarque e o Nelsinho Motta chegaram na minha frente e na frente delas também.

O Brasil levou mais de 50 anos para superar uma manifestação popular de tamanha envergadura, mas esta semana alcançamos o Marco Funerário de 300 mil defuntos de COVID-19 para espanto e admiração do mundo civilizado. Quem disse que o governo Boçalnaro não faz nada, depois de uma façanha dessas?

Alcançar um número desse sem planejamento, sem nenhuma coordenação, sem organização, sem vacina e sem oxigênio não é pouca coisa. Os brasileiros vão ter que intubar mais esta e sem direito a anestesia, porque acabou o kit intubação também.

Há muito tempo não somos mais o país do futebol. O Brasil agora é o país da pandemia! Para atingir essa meta histórica, a Nação se preparou durante anos investindo em doenças como a zika, a malária, a febre tifoide, a chicungunha, a pólio e a dengue. Perseguidas e erradicadas no resto do mundo, essas moléstias contagiosas encontraram abrigo e proteção no Brasil, e hoje vivem em total liberdade, infectando milhares de brasileiros, brasileiras e brasileires de todos os sexes.

Analisando o resultado desse campeonato macabro, chego à conclusão de que palavras não são suficientes para expressar minha indignação e orgulho varonil. Resolvi então juntar uma galera para dar uma surra no Palhaço do Alvorada comemorando mais esta conquista. Primeiro, fui procurar alguém que quisesse protestar comigo aqui na Rua da Amargura, onde está estacionado o meu autoimóvel, o Dodge Dart 73, enferrujado. Infelizmente, a Covid levou para o outro mundo metade dos meus vizinhos. A outra metade tentou ir para Portugal ou pro BBB, onde foi barrada na porta pelo Boninho, o Bolsonaro da Globo que instituiu o Estado de Sítio na casa mais famosa do Brasil.

Nem mesmo a Isaura, a minha patroa, quis me acompanhar nesse protesto porque tinha que participar de uma “live” com o bicheiro. Deu burro na cabeça. Tentei recorrer aos meus colegas de profissão, mas estes também fizeram ouvidos de Mercadante. O Jaguar disse que eu estava de porre. Ziraldo me acusou de maluquinho. Isso sem falar no Ivan Lessa e no Millôr, que não estão nem aí para os meus ataques de patriotismo tardio. O Wynderson Nunes disse que seu jatinho estava sem gasolina. Só o Marcius Melhem topou, mas eu recusei a sua ajuda com medo de ser estuprado.

O problema do Brasil não é a Pandemia, é o Pandemônio. Ninguém se entende, isso aqui não é mais um país, virou uma “rave”. Ninguém é de ninguém, o ambiente é de puro sexo: tá todo mundo se fud@#$%ˆ&endo. Cadê a ministra Damaris que não toma providência? Vai ver ela tomou um chá de cogumelo e está dançando pelada na Praça dos Três Poderes.

O Brasil tomou um ácido e começou a ter alucinações muito doidas. Transtornado pelo poderosos efeitos liminares e suspensivos do STF (Supremocloridro de Tetraciclina Fluoretada), o povo brasileiro entrou numa “bad trip”: o Petrolão nunca aconteceu, a corrupção é fake news, Lula é mais inocente que a Madre Teresa de Calcutá, nunca teve “rachadinha”, nem existe ninguém chamado Queiroz, Sérgio Cabral é um santo, Sergio Moro é que é bandido, as delações premiadas, as malas lotadas de dinheiro, tudo isso não passou de um delírio da nossa imaginação coletiva.

Só fica uma pergunta: se a ministra Cármen Pelúcia pode mudar o voto, por que será que a gente também não pode mudar o voto que deu na eleição passada?

Agamenon Mendes Pedreira é o Mistério da Saúde.

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