Agamenon: Boquete de Mosquito; Quer Dizer, Banquete de Mosquitos

Para sair um pouco da rotina de nossa vida sexual, Isaura e eu interrompemos nossa jornada mística para passar uma temporada juntos, praticando o sexo selvagem e o amor livre.

Um casal de amigos muito generoso nos convidou para uma temporada em sua magnífica fazenda, num lugar remoto do litoral baiano. Aqui estamos, Isaura e eu, neste paraíso terráqueo de coqueirais imensos e praias desertas de areias alvacentas, onde podemos nos banhar nus, tranquilamente, sem que as dimensões do meu bilau sejam alvo da chacota de alheia.

Passamos os dias inteiros catando coquinho e fumando uma poderosa maconha baiana, que nos desperta uma gigantesca e incontrolável larica. Já comemos tudo o que tem na geladeira e agora estamos devorando os móveis e estofados da casa.

Outros convidados ilustres e igualmente maconheiros nos acompanham neste ócio de verão. Uma americana que ficou nua em Woodstock, um editor de livros pornográficos, uma artista plástica consagrada e uma fashion woman de fama internacional.

Nossos dias se resumem a nos equilibrar pelados em cima de enormes pranchas de stand up comedy, fumando imensos baseados de marofa. Ao final do dia, um nativo me aplica uma vigorosa e relaxante massagem prostática com direito a happy end.

Mas um detalhe incômodo perturba a minha paz tão merecida. Eu, e somente eu, sou alvo preferido dos mosquitos locais, que fazem do meu corpo uma espécie de buffet de festa de casamento. Não sei se é a minha cútis alvacenta e ariana ou se é o meu sangue puro de caucasiano, mas somente eu, Agamenon Mendes Pedreira, sou objeto da voracidade incontrolável da mosquitada mais faminta e mais insaciável que um refugiado do Haiti.

Apavorado com a possibilidade de pegar uma grave moléstia, tive que recorrer à Ciência para poder entender esse curioso e incômodo fenômeno gastro-hematófago.

Os mosquitos são insetos artrópodes da família Culicidae.

O mais famoso é o Aedes Aegypti, que foi escolhido pelo Ministério da Saúde o muso deste verão. O popular Aedes (que significa odioso em latim) é transmissor da dengue, da Zika e da Chicungunha, isso para não falar da Febre Amarela. Somente as fêmeas chupam o sangue e o cartão de crédito de suas vítimas. Ao contrário do Anopheles, o vetor da malária. O Aedes deposita seus ovos em águas paradas ou em contas secretas na Suíça e por isso mesmo é suspeito de participar dos escândalos do PT de forma endêmica, chupando recursos dos cofres públicos para entregar tudo para o João Vaccari Neto.

Durante a ditadura militar o Aedes Aegypti havia sido erradicado no Brasil pela repressão, mas, depois do governo do Lula, voltou com força total, pois é um inseto de esquerda, que pica as elites e os pobres sem distinção. Muitos agrupamentos de mosquitos ganham Bolsa Ditadura.

Já o anófele transmite a malária, maleita ou febre sezão, outra moléstia tradicional e típica da cultura brasileira, assim como o Axé Music e o Sertanejo Universitário.

Pois essa mosquitada toda vem se banquetear no meu corpo encanecido, que está em chagas, cheio de picadas, inclusive em regiões remotas e inóspitas de minha anatomia.

Mas o pior ainda estava por vir. Entrava em meus aposentos quando, subitamente, deparei-me com uma cena dantesca. Apesar do cortinado, a minha patroa, a Isaura, estava sendo inoculada, bem no Curuzu, por um enorme mosquito. Em meio aos gritos lancinantes da indefesa Isaura, pequei um spray de Repelex e despejei inteiro no repugnante inseto. Mas foi em vão. Tive que lançar mão de uma raquete, dessas que se compra no camelô. Enchi o mosquito de raquetadas que só então saiu correndo de nossa alcova. E o que é pior: ainda levou as minhas havaianas.

Mas vocês sabem como são as mulheres. Em vez de ficar agradecida por ter sido salva do mega-artrópode, a inconformada criatura ficou reclamando, pois, segundo a Isaura, a minha patroa, estava curtindo muito a picadura do mosquito.

Feito esse trocadilho infame, apaguei a luz, virei-me para o lado e dormi.

Aganenon Mendes Pedreira é inseticida amador