Agamenon: "Cada um por Ciro e Deus por todos"

Agamenon: “Cada um por Ciro e Deus por todos”
Agamenon/O Antagonista

Não sou filho do Bolsonaro mas estou sempre atrás de uma rachadinha, desde que não seja a da Isaura, minha patroa. Aproveitei a brecha que o ministro Kassio Konká do Supremo deu liberando a religião coletiva e me mandei para a Igreja Adventista do Sétimo Dígito. Estava em busca da fé: a fé em descolar algum por fora porque sou um sujeito terrivelmente dinheirista. Infelizmente, acabei sendo barrado. E não foi por estar sem máscara ou qualquer outra medida sanitária. Funcionários armados do templo me impediram de entrar porque não tinha dinheiro pro dízimo. Prometi aos meganhas de Cristo que ia manter uma distância mínima de 2 metros do cofre mas não adiantou nada. 

Abandonado por Deus e pelos homens, resolvi voltar pra casa sem avisar, o que poderia me trazer ainda mais aborrecimentos. Mas o Senhor escreve certo por arados tortos e lá, no meu Dodge Dart 73, enferrujado, meu auto-imóvel, dei de cara com os presidenciáveis de 22. Lá estavam, espremidos dentro da viatura, Tiro Gomes, Luciano Hulk, Sergio Moro, Amoedo, Mandetta e o Doria. Senti falta do Cabo Daciollo e, na lata, perguntei educadamente aos candidatos o que eles estavam fazendo na minha residência sem serem convidados, perturbando a minha vida. Gentilmente, Ciro respondeu que, contra o Bolsonaro em 22, eles buscavam a união. No caso, a União com U e $ maiúsculos. Como não acredito em políticos, mentirosos ou não, fiz questão de afirmar a minha independência de jornalista isento e imparcial. 

 Ao perceber aquela demonstração de civismo e cinismo, Huck ofereceu-se a levar meu carro para o Lata Velha. Doria me ofereceu uma passagem para Miami e uma sessão de bronzeamento artificial.  Amoedo disse que me daria uma placa de porcelanato nas suas lojas Amoedo. Mandetta me prometeu uma dose de vacina usada e o Ciro disse que só podia me dar uma porrada. Fiquei de pensar naquelas ofertas generosas e botei os vagabundos pra fora. 

Que fase! Bolsonarma quer tacar fogo no país e começou pela Amazônia. Seu adversário vai ser o Lula, o candidato do Supremo, que, pelo menos, não vai instaurar o Estado de Sítio. Quer dizer, só se for o Sítio de Atibaia. Parece que nesses 4 anos todos só uma coisa deu certo no Brasil, a pandemia que se mudou pro país, estabeleceu residência e daqui vai exportar pro mundo suas cepas e variantes. Não deixa de ser um consolo, me diz a Isaura, minha patroa. E olha que o consolo dela é Made in China…

Agamenon Mendes Pedreira é jornalista da Fiocruz.

Leia mais: Assine a Crusoé e apoie a o jornalismo independente.
Mais notícias
Comentários desabilitados para este post
TOPO