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Agamenon: "O Crisedente da República"

Fui vacinado, finalmente. O meu grupo de idosos ultra-provectos e hipermorbosos chegou no posto de saúde ainda de madrugada. Lotamos centenas de vans, como no tempo em que passeávamos no shopping, assistíamos ao teatro e, em seguida, fazíamos um lanche na Colombo. Na fila, na minha frente, tinha o imperador Nabucodonosor, o faraó Ramsés II e a Ana Maria Braga.

Eu e a Isaura, a minha patroa, tomamos a nossa vacina no aristocrático Jóquei Clube Brasileiro. Sou sempre bem recebido naquele estabelecimento hípico porque sou ex-sócio-atleta. Hoje estou só na reprodução, mas ainda tenho direito a tratamento VIP (Very Important Poney).

Quando percebi que a vacina era de graça entrei na fila mais 5 vezes, fazia tempo que meu organismo não recebia algum tipo de alimento. Relutei antes de repetir a dose várias vezes porque qualquer coisa que venha do governo, principalmente “de grátis” , deve ser objeto de muita desconfiança. A mim coube tomar a AstraCínica, a vacina do Curso Oxford.

Quando chegou a minha vez, estiquei o braço e sorri para os flashes dos paparazzi que, devido à minha idade encanecida avantajada, me confundiram com o Caetano Velhoso. Em seguida, a minha patroa, a Isaura, levantou a saia exibindo suas nádegas, outrora calipígias, pronta para ser inoculada.

Ao ver aquele aquele deprimente espetáculo de flacidez, o avantajado enfermeiro afro descendente, com um sorriso maldoso, introduziu sua agulha rombuda. Ao empurrar o embolo da seringa em movimentos frenéticos, a insaciável criatura gemeu num frêmito de prazer e volúpia, devemos prestar a nossa homenagem aos bravos profissionais de saúde que arriscam a vida em missões perigosas como essa.

Logo que chegamos em casa começaram os efeitos culaterais. Subitamente minha cútis, outrora sedosa e macia, começou a ficar escamosa e sebenta, parecia um juiz da segunda turma. Minhas unhas se transformavam em garras pontiagudas e, na minha boca, até então banguela, apontavam dentes afiados de predador. Ao mirar-me no espelho percebi apavorado que um inicio de rabo despontava a partir do meu traseiro magro. Em pânico e em pranto convulsivo, comecei a derramar lágrimas de crocodilo imaginado como seria minha vida de réptil rastejante em extinção.

Dei-me conta que o jacaré não tem bunda. O que faria com as inúmeras cadeiras, assentos, poltronas, pufes e banquinhos que possuo na minha residência? E o pior de tudo, veio à minha mente o intrigante paradoxo do jacaré que, apesar de não ter bunda, só se come o rabo. Comer esta parte remota do réptil é um costume que provoca sérios problemas de coluna no homem pantaneiro e no caboclo amazonense. Com exceção, é claro, do seringueiro que passa vida enfurnado na floresta tirando leite do pau e, por isso mesmo, não come jacaré.

Enquanto isso, o projeto do nosso crisedente da república, É Bom Jair se Internando Bolssossauro, vai de vento em proa. O Brasil está cada vez mais isolado do resto da Humanidade civilizada, ninguém mais aceita receber brasileiro em casa. Até mesmo Netuno, o Rei dos Mares, proibiu a entrada de brasileiro no Oceano Atlântico que é para não infectar as águas. O mitológico monarca marinho decretou que brasileiro pode até ir na praia , mas não pode mergulhar nem pegar onda.

Agamenon Mendes Pedreira virou jacaré mas pretende sair da lama.

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