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Agamenon: Osso duro de comer

Pena que Sebastião Salgado ainda não existisse; minha família poderia ganhar uma grana como figurante em livros de arte caríssimos com fotos de miseráveis
Agamenon: Osso duro de comer
Agamenon/O Antagonista

Bons tempos aqueles em que eu morava na Pindaíba, um subúrbio da Central que fica depois de Queimados. Bem depois, duas estações depois de Carbonizados, que é uma outra comunidade de periferia onde os que estão bem de vida moram num barraco de frente para o lixão. Na Pindaíba, as pessoas eram tão pobres que as famílias eram obrigadas a viver dentro de garrafas pet de tubaína que boiavam num lago de esgoto —e, mesmo assim, rachando o aluguel. Apesar de todo o miserê, a Pindaíba era um lugar pacífico: não tinha assalto porque os assaltantes não tinham a quem roubar. Mesmo assim, enormes ratazanas circulavam pelo bairro espalhando o medo e a destruição. De uma feita, nossos vizinhos se reuniram para caçar uma ratazana que tinha devorado o neto da Dona Dirce. Encurralada, a besta-fera foi abatida a pedradas. A carne do roedor, dividida entre os caçadores, sustentou as famílias por três meses. Com as pedras fizemos uma sopa. Os políticos só apareciam por lá em época de eleição, pra distribuir uns santinhos que a criançada devorava faminta e agradecida. É uma pena que, naquela época, o Sebastião Salgado ainda não existisse porque assim, pelo menos, a minha família poderia ganhar uma grana posando de figurante em livros de arte caríssimos com fotos de miseráveis.

Essas doces memórias dos tempos longínquos me vêm à mente porque a carestia, a prevaricação e os precatórios estão de volta. Por isso mesmo o juiz Sergio Moro lançou a sua candidatura: para acabar de uma vez por todas com a corrupção. Se for eleito, Moro promete instalar o VAR no Executivo, Legislativo e Judiciário.

Enquanto ex-morador da Pindaíba, eu tenho lugar de fala quando o assunto é pobreza miserável. Minha mãe, coitada, era obrigada a passar necessidade para fora, e meu pai era catador de guimbas de cigarro que ele vendia para a Souza Cruz. Na minha casa, só tinha uma roupa para todo mundo: um vestido de noiva que a minha mãe achou no lixo.

Meu pobre pai saía todas as manhãs para descolar algum qualquer vestido de noiva, enquanto o resto da família tinha que passar o dia pelada dentro de casa. Para minha mãe e minha irmã, isso não era um problema, porque elas já trabalhavam assim muito antes do advento do home office. Perto de nós, os flagelados da Etiópia eram nababos abonados, e Os Miseráveis de Victor Hugo pareciam emergentes da Barra da Tijuca.

Uma vez, em 1904, meu pai me deu um tostão para comprar um pão velho, que seria a nossa ceia de Natal. Mas, no meio do caminho, eu parei fascinado na frente de uma dessas máquinas eletrônicas de pegar bichinhos de pelúcia. Garoto ingênuo e viciado em jogos de azar, perdi todas as economias da família tentando a sorte grande. Quando cheguei em casa sem a nossa ceia (e sem o ursinho de pelúcia), meu pai, compreensivo, começou a me espancar violentamente. O resto da família, quando soube da história, se juntou ao velho para me dar porrada, porque lá em casa sempre fomos muito unidos. Se Deus não nos deu dinheiro e conforto, não faltava união em nosso lar.

Hoje, idoso e alquebrado, volto ao passado ainda assombrado pela fome e pela ruína. Só me resta tentar entrar na Academia Brasileira de Letras. Agora, entrar para aquele seleto grupo de imortais letrados ficou mais fácil com as eleições da Fernanda Montenegro e do Gilberto Gil. Assim como esses grandes artistas brasileiros, também sou velho e encanecido; desta forma tenho chances de um dia, quem sabe, vir a tomar o tradicional chá da instituição. Principalmente se ele vier com bolo e uns biscoitinhos.

Agamenon Mendes Pedreira é escritor semiletrado.

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