Auschwitz e Tito

Eu, Diogo, escrevi um livro sobre meu filho Tito, que tem paralisia cerebral. Num determinado momento, tratei do programa de eutanásia nazista, o Aktion T4, que visava exterminar todos os deficientes da Alemanha, inclusive aqueles com paralisia cerebral.

Hoje, 27 de janeiro, aniversário de setenta anos da liberação de Auschwitz, reproduzo um trecho do livro.

O superintendente do programa T4, Franz Stangl, responsável pela morte de trinta mil inválidos no centro de eutanásia de Schloss Hartheim, tornou-se o primeiro comandante do campo de extermínio de Sobibór. 

De maio a agosto de 1942, ele matou cem mil judeus.

Franz Stangl foi promovido a comandante do campo de extermínio de Treblinka II.

De agosto de 1942 a agosto de 1943, ele matou outros oitocentos mil judeus.

Depois da queda do Terceiro Reich, Franz Stangl se refugiou no Brasil.

Perseguido por Simon Wiesenthal, ele foi preso em 28 de fevereiro de 1967 e extraditado para a Alemanha.

Condenado pela morte de mais de novecentas mil pessoas – entre os paralisados cerebrais da Aktion T4 e os judeus da Aktion Reinhard -, ele morreu em uma cela, em Dusseldorf.

Assim como Franz Stangl, Josef Mengele também se refugiou no Brasil.

Médico da SS, ele era encarregado de examinar e selecionar os prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz. 

Os mais válidos – que podiam ser empregados no trabalho escravo – eram encaminhados para a sua direita. Os menos válidos – que podiam ser imediatamente gaseados e cremados – eram encaminhados para a sua esquerda.

Josef Mengele, em Auschwitz, conduziu experimentos médicos que resultaram na invalidez e na morte de milhares de prisioneiros.

Em um de seus experimentos, Josef Mengele selecionou dois meninos – um dos quais inválido – e cortou-os longitudinalmente com um bisturi.

Depois costurou um menino no outro: costas com costas, ombros com ombros e pulsos com pulsos – como se eles fossem siameses.

Um dos meninos se chamava Nino. O outro se chamava Tito.

Tito e Nino.

Meus filhos chamam-se Tito e Nico.

Agora estamos na praia  da Enseada, em Bertioga.

Em 7 de fevereiro de 1979, entrando no mar, na praia da Enseada, Josef Mengele teve um derrame cerebral e morreu.

Vim até aqui, com meus filhos Tito e Nico, seguindo o rastro de Josef Mengele. Quero entrar no mar em que ele morreu. Quero tripudiar sobre seu cadáver. Quero comemorar o valor da vida de um filho inválido.

Sou o Simon Wiesenthal da paralisia cerebral.

Josef Mengele está morto. Tito está vivo.

Tito e Nico, os dois siameses