Eles produzem; outros patrocinam, fazem propaganda — e quem paga são as criancinhas pobres

O Antagonista teve acesso à lista mais recente de projetos culturais aprovados pelo governo federal, para captar recursos via Lei Rouanet, com as respectivas quantias máximas autorizadas. Isso significa que os produtores podem bater à porta de pessoas físicas, empresas privadas e estatais, para pedir esse dinheiro via renúncia fiscal. Ou seja, o que as pessoas e empresas se dispuserem a dar é integralmente abatido do imposto de renda delas. Ou seja, as criancinhas pobres do Brasil pagam. E elas podem, ainda, fazer propaganda de si mesmas na condição de patrocinadores, como se o dinheiro dado fosse delas. Não é. É das criancinhas pobres do Brasil.
Há até empresas especializadas em fazer a ponte entre uns e outros. Uma delas anuncia-se assim: “Aprovamos — Lei Rouanet: Pague em 12x! Nossa sede é em Brasília, ao lado do Ministério da Cultura, o que confere agilidade à aprovação.” Despachante cultural: uma contribuição brasileira ao mundo. Despachante cultural pago no crediário: outra contribuição brasileira ao mundo.
É bom para todos os envolvidos (menos para as criancinhas pobres do Brasil), também porque, não raro, parte do que produtores captam é devolvido por baixo do pano para patrocinadores, no caixa dois. Não raro, ainda, do valor devolvido é deduzida uma “comissão” para tais produtores. Um bem-bolado, enfim, para usar uma expressão ao gosto do ex-ministro Antonio Palocci, em circunstâncias nada culturais.
A lista de projetos aprovados é, evidentemente, extensa. Não publicaremos todos, mas somente alguns, em diversos posts no decorrer desta semana. O critério principal são as altas quantias aprovadas, mas, como antagonistas que somos, nos sentimos livres para adotar outro critério a qualquer momento. Ah, sim, que fique claro: não há nenhum indício de que há maracutaias no que vai listado abaixo. A nossa intenção, como “odiojornalistas” (a definição é da “amorsecretária” Ivana Bentes), é  mostrar o preço a diversidade cultural brasileira.
Os projetos elencados aqui são apenas de Artes Cénicas, uma das categorias do Ministério da Cultura:

1) Peer Gyant (deve ser Peer Gynt, a peça de Ibsen): captação autorizada de  R$ 2.062.240.00
2) Zaratustra: captação autorizada de R$ 1.152.200,00
3) A Luz na Piazza: captação autorizada de R$ 4.623.850,00
4) A fabulosa cozinha de Pierre: captação autorizada de fabulosos R$ 939.860,00
5) Sistema único (Campo de Batalha): captação autorizada de R$ 1.578.400,00
6) Em Cena (nome provisório): captação autorizada de nada provisórios R$ 8.955.200,00
7) Sambra, cem anos de samba: captação autorizada de R$ 3.982.500,00
8) Chatô, o rei do Brasil (depois do filme de ficção, literalmente, de Guilherme Fontes, fazemos votos de que a peça entre em cartaz, só não nos convidem para ver): captação autorizada de R$ 4.832.076,61
9) Prêmio Reverência (ao que consta para artistas de musicais): captação autorizada de R$ 3.059.903,50
10) Plano Anual de Atividades Alfa (não é um encontro de ufologistas, mas a programação do Teatro Alfa, em SP): captação autorizada de R$ 7.102.588,37

Para finalizar este post, escolhemos um projeto para homenagear especialmente Ivana Bentes. Trata-se de Espetáculo Circense RAÇA — Diversidade cultural brasileira, autorizado a captar R$ 3.045.400,00.
Os onze projetos somam mais de 41 MILHÕES DE REAIS. Entenderam por que existe um Ministério da Cultura?