“Minha Luta” e a piada de brasileiro

‘Minha Luta”, de Adolf Hitler, caiu em domínio público em 2016. Com isso, o livro ganhou novas edições em diversos países, a começar pela Alemanha.

Houve muita polêmica sobre a conveniência de lançar uma porcaria dessas, mas, ao contrário do Brasil, onde o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro resolveu censurar o livro, em nenhuma latitude civilizada houve interdição. História é história. “Minha Luta” serviu, por exemplo, de base para que o americano William Shirer dissecasse a cabeça doente de Hitler no seu portentoso “Ascensão e Queda do Terceiro Reich”.

João Pereira Coutinho fala sobre a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, na sua coluna na Folha de S. Paulo. Leiam um trecho:

“Mas quem, em juízo perfeito, teria interesse em ler ‘Minha Luta’?

Agora confesso: qualquer aluno meu. ‘Minha Luta’, tal como os textos de Robespierre ou Lênin, são leituras obrigatórias para estudantes de ciência política. Desconfio que o mesmo acontece em história.

Digo mais: uma das melhores teses que eu supervisionei em Lisboa foi escrita por um aluno brasileiro (nem de propósito) que fez um estudo comparativo entre o pensamento utópico e revolucionário de Lênin e Hitler a partir dos seus escritos. Esse aluno é hoje um excelente cientista político, e o nome —Bruno Garschagen— encontra-se em livrarias.

Uma tese dessas seria possível no Brasil? Melhor ainda: um brasileiro que tenha interesse em estudar o nacional-socialismo e o Terceiro Reich está proibido de usar uma das suas fontes primárias mais importantes? Não me matem de riso.

‘Minha Luta’ pode ser um livro “infame’. Mas ele é, antes de tudo, um documento histórico. Escrito na prisão de Landsberg, depois do ‘putsch’ fracassada dos nazistas contra o governo da Baviera em 1923, o livro constitui o único texto “sistemático” (digamos assim) da mundividência de Hitler.”

O português João Pereira Coutinho ri de mais essa piada de brasileiro. E nós rimos com ele.