Tio Barnabé: Brasília que queria ser Washington ou Paris

“Já falei que Lúcio Costa criou a Teoria das Escalas (gregária, monumental, residencial e bucólica). Curiosa Mente a teoria veio somente quatro anos depois de ter feito o Plano Piloto. Ideia engenhosa. Execução rápida e caríssima. Dizem que foi o início do desatino com o nosso dinheiro e com o orçamento público. Aliás, Brasília não existiria se já houvesse a tal Lei de Responsabilidade Fiscal.

A ideia não era nova. Em 1821, José Bonifácio de Andrada e Silva escreveu “parece-nos também muito útil que se levante uma cidade central no interior do Brasil para assento da Corte ou da Regência, que poderá ser na latitude, pouco mais ou menos, de 15 graus, em sítio sadio, ameno, fértil e regado por algum rio navegável”.

Bom sublinhar…sadio, ameno…Bonifácio não conhecia o paralelo 15…

Em 1955, JK implanta seu programa de metas e Brasília passa a ser “Projeto Meta-Síntese”.

Muita gente nota a influência do urbanismo de Washington, especialmente o seu National Mall, em Brasília. Ouvi dizer que até mesmo o Axe de France (avenida dos Champs-Élysées) em Paris foi objeto de inspiração do meio francês Lúcio Costa. A capital norte-americana é de 1791. Paris foi reorganizada pelo Barão Haussmann entre 1835 e 1870.

Pois bem. Todos sabem que o lugar de nascimento é aquele em que vislumbramos alguma inteligência em nós mesmos. Portanto, embora nascido em Paracatu, renasci aqui. Aqui me entendi por gente, no popular.

Mas os ócios da província que queria ser Washington e Paris, mesmo meio século depois de sua construção, ainda rondam a Capital Federal. Até hoje são ressentidos.

No século XXI, em Brasília, as “querelas de precedência” são motivo de muitas rusgas e inimizades para todo o sempre. Posicionar “autoridades” em uma “mesa de honra” é trabalho que nem Hércules daria conta. Conheço Ministro de Tribunal Superior que se não considerar a posição de sua cadeira em um evento digna de sua estatura e importância, vai embora. Já presenciei.

Em Brasília, como nas Câmaras de Vereadores do interior do Brasil, cada frase de um Parlamentar ou Ministro é automaticamente saudada pelo próximo orador como uma máxima de Cícero. Os rapapés de discursos congratulatórios são recorrentes e aborrecidos.

Tão comum como as intrigas, calúnias e brigas por viagens internacionais são os discursos vazios nas sessões e solenidades diárias.

O ex-senador Mão Santa (médico coloproctologista piauiense), por exemplo, tornou-se folclórico por suas citações estapafúrdias do tipo “a união faz a força, como já dizia o grande filósofo Platão! ”.

Na época do Twitter e do Facebook, do Whatsapp e do Google, nossas autoridades têm o estranho hábito de realizar a nominata de todos os presentes. Isso mesmo. Num evento com uma mesa de cerca de 15 autoridades, todos nominarão os sentados a cada fala e, eventualmente, aqueles que porventura não encontraram lugar à mesa. Dane-se a audiência. Dane-se o tempo. Dane-se o dinheiro gasto. O que importa é a invenção bem brasileira, a nominata 360 graus.

Por aqui, aliás, o ‘falar para nada dizer’, de Maurice Blanchot, foi elevado à perfeição.”

Brasília DC: como vemos, suplantamos a capital americana. E também a francesa

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