Tio Barnabé: o barnabé corredor

Costumava comparecer a jantarzinhos em Brasília. Nesses jantarzinhos, nunca ouvi ninguém comentar sobre a injustiça de Martin Amis não ter ganhado um Man Booker Prize. Suspeito de que talvez não saibam quem é Martin Amis. Sim, estamos muito longe do mundo. O Brasil é um exotismo de samba, futebol e sexo com garotas menores de idade.

Entretanto, nessas mesmas ocasiões sempre ouvi com curiosidade e impaciência algumas histórias místicas, astrológicas e de viagens a lugares estranhos. Acho que também só no Brasil a marijuana ainda é tema de debate acalorado. Mas ultimamente o que havia mesmo tomado relevo eram as corridas. Todos, todos mesmo, corriam. E as discussões sobre a alimentação para os “atletas” e, acreditem, o rodízio de tênis e os tipos de pisada, com “pronação ou supinação”, eram contínuas!

O barnabé brasiliense, telúrico, odara, avesso ao glúten e à inominável lactose, corre! Desconfio que, por correr tanto, ande devagar na repartição.

Transpirando nas academias, nas quadras e nas ruas de nossa capital, metidos em shorts estranhos ou até mesmo em sungas, o barnabé descerebrado corre! Sobretudo à custa de suplementos alimentares e reposição hormonal, enquanto cobre quilômetros, há visível desabamento do QI.

Fico com Don Rigoberto que, nas suas muito citadas diatribes, dizia considerar “a prática de esportes em geral e o culto à prática de esportes em particular, formas extremas de imbecilidade, que aproximam o ser humano do carneiro, dos gansos e da formiga, três instâncias agravadas do gregarismo animal”. Mas e a famosa “mente sã em corpo são”? Com a palavra, Rigoberto:

Quem disse que mente sã é um ideal desejável? Sã quer dizer, neste caso, tola, convencional, sem imaginação e sem malícia, arrebanhada pelos estereótipos da moral estabelecida e da religião oficial. Mente sã, isso? Mente conformista, de beata, de tabelião, de securitário, de coroinha, de virgem e de escoteiro. Isso não é saúde, é tara. Uma vida mental rica e própria exige curiosidade, malícia, fantasia e desejos insatisfeitos, isto é, uma mente suja, maus pensamentos, floração de imagens proibidas, apetites que induzam a explorar o desconhecido e a renovar o conhecido, desacatos sistemáticos às ideias herdadas, aos conhecimentos manipulados e aos valores em voga”. Bingo!

Para piorar, o barnabé corredor faz proselitismo da corrida. Sim, da corrida e das maravilhas do tal de um “whey protein isolado”, clara de ovo e batata doce. Eu, de minha parte, nesses momentos, violentava a plateia com a informação de que não corria e sequer sabia nadar (para incredulidade das pessoas e certo sentimento de compaixão e condescendência falsa que adoro observar).

Hoje, portanto, para quem visitar Brasília, não raro verá no Eixão, aos domingos, alguma corrida de rua patrocinada pela Caixa Econômica Federal. Vai admirar velhos, crianças, homens e mulheres correndo, esbaforidos. E poucas coisas são menos atraentes numa bela mulher do que uma corrida de rua! Acho que é difícil incutir nas cabeças das moças corredoras que as mais lindas são o que são não porque correm, mas porque o ácido desoxirribonucleico divino assim determinou. Ou, parafraseando o infernal Nelson Rodrigues, elas possuem, por graça do Criador, a famosa “saúde de vaca premiada”.

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