A desigualdade aumentou bem mais em Davos

Os jornais brasileiros repercutiram uma previsão catastrófica sobre o crescimento da desigualdade no mundo, divulgada no Fórum Econômico Mundial, em Davos: a de que, até o final de 2015, 1% da população mundial passaria a concentrar mais riqueza do que os 99% restantes. Quem fez a previsão foi a Oxfam, uma confederação de organizações humanitárias presente em mais de 100 países.
O Antagonista sempre desconfia dos números do ministério da Fazenda brasileiro e de qualquer entidade caritativa.  O ministério sempre tenta abaixar as estatísticas ruins e aumentar as boas. Entidades caritativas fazem o contrário. Com a Oxfam, não deu outra: a estatística piorou a realidade.
Quem fez o trabalho pelo Antagonista foi a Economist. De acordo com a revista inglesa, a Oxfam baseou-se num periodo estreito demais, de 2010 a 2014. Se tivesse usado um mais longo, como se deve fazer, de 2000 a 2014, por exemplo, a passagem alardeada ocorreria somente em 2035.
Bancos também podem usar a régua errada. Em outubro, o Credit Suisse publicou um relatório segundo o qual 48% da riqueza líquida das famílias (excluídas as dívidas) está nas mãos de 1% delas. O problema é que, por esse critério, cinco milhões de proprietários americanos que devem mais do que o valor das suas casas hipotecadas figurariam entre os mais pobres do planeta — uma evidente tolice. E por aí vai.
Qual seria, então, a melhor medida para estabelecer a desigualdade e o seu futuro? A renda. De acordo com um estudo publicado há menos de dois anos, entre 1988 e 2008, o 1% da população mundial mais abastado teve a sua renda aumentada em mais de 60%. Em contrapartida, as pessoas que se encontram no meio da curva viram a renda crescer 80%. Isso se explica pelo engrossamento da classe média nos países emergentes, principalmente a China. Na Europa e nos Estados Unidos, por sua vez, a renda encolheu para a maioria dos cidadãos.
Conclusão: a desigualdade aumenta, mas de forma desigual nos diversos países. E, como diz a Economist, o retrato global é menos cinzento do que o apresentado pela Oxfam em Davos.


Notas fora da cueca entram na estatística

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