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"Primeiro, tiramos o Bolsonaro. Depois, vencemos o Lula. Não dá as duas coisas ao mesmo tempo"

Em entrevista a O Antagonista, o presidente do Novo, Eduardo Ribeiro, reforça o posicionamento do partido a favor do impeachment do presidente
“Primeiro, tiramos o Bolsonaro. Depois, vencemos o Lula. Não dá as duas coisas ao mesmo tempo”
Foto: Daniel Pereira/NOVO

O presidente do Novo, Eduardo Ribeiro, que assumiu a função dias antes do início da pandemia da Covid no Brasil, admitiu, em entrevista a O Antagonista, a divisão interna em relação ao posicionamento do partido sobre a defesa do impeachment de Jair Bolsonaro. Quem pensa diferente, acredita Ribeiro, vai acabar deixando a legenda.

Sem citar nomes, Ribeiro diz que há, na bancada federal do Novo, “um pessoal que não vê como solução uma saída do Bolsonaro ou tem um receio muito grande de que isso possa permitir que a esquerda volte”. Como dirigente partidário, no entanto, ele reforçou a decisão institucional, anunciada em julho deste ano, favorável ao afastamento do presidente da República.

Ribeiro chama Bolsonaro de “político medíocre” e afirma que o presidente “está fazendo o PT parecer um partido moderado”. “Olha o tamanho do estrago que uma pessoa pode causar”, diz.

O presidente do Novo também confirma que a sigla não tem apego a candidatura própria ao Planalto em 2022 e trabalha para a construção da chamada terceira via. Ele comenta, ainda, a recente debandada de filiados e o fiasco de público nas manifestações de 12 de setembro.

Leia a íntegra da entrevista:

Por que as manifestações de 12 de setembro, pelo impeachment de Bolsonaro, apoiadas pelo Novo, foram um fiasco de público?

Acho que diversos fatores contribuíram, mas eu destacaria dois: 1) a mudança de pauta em cima da hora, para focar só no impeachment do Bolsonaro, confundiu muita gente; 2) o PT e a esquerda lulista, junto com os bolsonaristas, contribuíram ativamente para desmoralizar as manifestações, de modo que fosse quase impossível transmitir a ideia de que era possível fazer uma manifestação com pessoas que pensam diferente.

João Amoêdo disse recentemente que o Novo não tem identidade. Qual a identidade do Novo? O que é o Novo?

O Novo é, acima de tudo, um partido institucionalista. Antes de sermos um partido liberal, que defende a redução do tamanho do Estado e a privatização das estatais, nós somos um partido que defende as instituições. Isso talvez tenha confundido algumas pessoas no partido, levando-as a crer que, independentemente de quem esteja no poder, o importante é fazermos as reformas e diminuir o Estado. Não, isso é consequência. A primeira coisa que deve ser feita é preservar as instituições, que ainda são muito jovens no Brasil.

Se as pessoas que estão lá no poder não estão respeitando o modelo institucional vigente e republicano, e aqui falando especificamente do presidente da República, alguma coisa precisa ser feita. Antes de defender as outras pautas, pelas quais o Novo ficou conhecido, precisamos defender as instituições. Depois, vamos para as pautas econômicas e de modelo de Estado.

É por isso que somos oposição a este governo e a favor do impeachment de Bolsonaro. É claro que esse assunto não é consenso no partido, todo mundo sabe. Há divisão na bancada [da Câmara] e entre os filiados. E isso passa a impressão de que o partido perdeu a identidade. Mas isso não aconteceu somente com o Novo. O bolsonarismo faz isso, o populismo faz isso com as instituições partidárias.

Isso o quê?

A divisão. O populismo divide os partidos. O próprio Bolsonaro tem um desprezo pelas instituições partidárias. Olha a quantidade de partidos pelos quais ele já passou. E hoje nem sequer partido ele tem, porque isso não é importante para ele.

O que é importante para o Bolsonaro? Fomentar o caos, fomentar esse movimento populista e nacionalista que coloca o presidente como o grande ‘salvador da pátria’ contra o sistema. Isso acaba minando as instituições partidárias e, infelizmente, pode afetar a atividade parlamentar.

A grande sacada do Novo, de governança, é separar a gestão partidária da política. Eu sou um dirigente do partido, não posso ser político, não posso ter mandato eleito. Da mesma forma que nenhum mandatário pode ser dirigente. Esse afastamento dá essa isenção para que nós, dirigentes, tomemos essas decisões de direcionamento, que foi o que fizemos em relação ao impeachment.

O Novo, como partido, é a favor do impeachment de Bolsonaro.

Sim. Primeiro, tiramos o Bolsonaro. Depois, vencemos o Lula. Não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Por isso, a gente tem o plano de tentar construir a terceira via para 2022. Mas, no momento, estamos tentando criar um ambiente institucional e político para que o Bolsonaro seja removido. Esse é o caminho, essa é a nossa diretriz partidária e é isso que vai direcionar o nosso caminho para 2022.

Mas há uma divisão interna?

Sim e não é demérito algum reconhecer isso. A gente não precisa fingir que não tem divisão. Agora, o que precisa ficar claro é o posicionamento da instituição, que é de oposição ao governo e a favor do impeachment de Jair Bolsonaro. Nós queremos tirar esse presidente da República. Essa divisão existe na bancada federal, mas não tanto entre os dirigentes.

E como o partido lida com isso? Há um trabalho de convencimento ou possibilidade de punição por posturas contrárias à orientação do partido?

A gente não pode obrigar todo mundo a virar a chave ao mesmo tempo. As pessoas têm tempos diferentes. Aqueles que, de fato, não estão se sentindo confortáveis com o caminho que o partido está indo naturalmente vão sair. Eu entendo isso como algo que vai acontecer naturalmente.

Quem é acusado de bolsonarista no Novo nega essa pecha.

Acho que cada um acaba, vamos dizer assim, rotulando as pessoas de acordo com a sua própria consciência. Para mim, bolsonarista é aquele que faz arminha e defende o Bolsonaro a qualquer custo. O que nós temos no Novo é um pessoal que não vê como solução uma saída do Bolsonaro. Ou tem um receio muito grande de que isso possa permitir que a esquerda volte. Então, não considero que sejam bolsonaristas. Eles têm uma visão diferente da nossa, do diretório nacional. Enfim, os bolsonaristas mesmo do Novo já saíram, já foram expulsos.

Para nós, o Bolsonaro é o culpado pela volta do Lula, pelo crescimento do Lula. Então, ele tem culpa por esse processo de retroalimentação. E ele está fazendo um grande mal para o país: não está sendo um bom gestor, é um político medíocre. O Bolsonaro acabou trazendo essa instabilidade, que acabou alimentando a volta da esquerda. O Lula está jogando parado. Bolsonaro está fazendo o PT parecer um partido moderado: olha o tamanho do estrago que uma pessoa pode causar.

Há críticas de que o partido não ouviu os mandatários para tomar a posição pelo impeachment do Bolsonaro.

O partido ouve todo mundo. E nós sabemos, mais ou menos, como é a opinião de cada um. Agora, a função dos mandatários é a atuação política nas Casas legislativas. Os posicionamentos estratégicos, de longo prazo, de cunho nacional, que posicionam o partido, que dão a direção, aí cabe ao diretório nacional. Justamente para evitar que essas influências… Não é uma crítica, é uma realidade, é como acontece: o deputado representa uma parcela da população; o diretório tem que ter essa isenção para tomar decisões que, às vezes, de fato, desagradam o eleitorado de um ou outro mandatário. É por isso que pode dar a sensação de que não são ouvidos. Mas são ouvidos, sim. Só que a decisão vai caber aos dirigentes, que foram eleitos para tomar essas decisões.

A que você atribui a recente debandada de filiados?

São vários fatores. O partido cresceu muito em 2018, foi um sucesso, muita gente se filiando e nós temos a limitação de usar dinheiro público. Então, nós somos obrigados a crescer com um certo conservadorismo financeiro, para o partido não ruir. Partido é algo caro de manter. Ou seja, nós precisamos limitar o número de cidades onde temos diretório e muita gente de cidades que não foram escolhidas [para ter diretório] começaram a se desfiliar em agosto de 2019, quando tomamos essa decisão de limitar.

Na pandemia, muita gente também se desfiliou, até por questões financeiras. Isso tudo vai se somando.

E aí, lógico, o partido adotou uma postura quase ácida e agressiva contra o governo, porque já estávamos percebendo que seria uma catástrofe. E o nosso posicionamento talvez não tenha sido tão bem recebido por uma base que tinha uma certa expectativa de que aquilo ali fosse passar, que o governo fosse acertar. Havia entre alguns uma expectativa de que as reformas, pelo menos, com o Paulo Guedes, iriam acontecer. E isso [o posicionamento a favor do impeachment] gerou um certo descontentamento, a gente não vai negar. E isso contribuiu para as desfiliações. Mas, ainda assim, estamos maiores hoje do que às vésperas das eleições de 2018.

Como você lida com a crítica de que o Novo envelheceu e envelheceu rápido?

Essa é a piadinha que a gente escuta desde o dia 1. Temos um estatuto diferenciado, um sistema de governança diferenciado, não usamos dinheiro público: são critérios para evitar que o partido seja tomado ou acabe indo por um caminho pragmático demais e se torne fisiológico.

Mas é verdade que quando você está dentro da política… Porque uma coisa é você ser somente uma ideia e a outra é você estar ali, na realidade, atuando. Você precisa construir acordos para aprovar projetos. E não tem problema algum, isso faz parte da política. Então, algumas coisas a gente vai aprendendo também e dizendo: ‘Opa, não é bem assim do jeito que a gente imaginava. Desse jeito, não vai funcionar’.

Nós queremos ser relevantes não somente pela ideia, mas também queremos ter uma representatividade grande. A gente não envelheceu. A gente quer crescer de maneira consistente, não quer trazer um monte de gente que tem voto para chegar lá na frente e ter uma bancada o tempo todo votando dividida. Isso você não vai ver no Novo.

O Novo vai ter candidatura ao Planalto em 2022?

A gente vive um outro momento. Se surgir um nome que caiba dentro do Novo e consiga congregar todas essas lideranças do centro e da centro-direita, nós certamente não iremos dividir voto. Nós vemos muitos partidos lançando candidatos. Eu acho isso muito saudável, contanto que todo mundo esteja disposto a, lá na frente, retirar a candidatura, deixar as vaidades de lado e escolher quem tem mais chance. Estamos dentro desse grupo.

O Novo, então, hoje, não tem pré-candidato?

Não, não temos. O João Amoêdo retirou a candidatura dele e o deputado federal Tiago Mitraud não conseguiu as assinaturas para ser pré-candidato. O nosso trabalho tem sido ajustar maneiras e construir o caminho para que a gente possa apoiar uma candidatura lá na frente.

Quais as metas e a prioridade do Novo nas eleições do ano que vem?

Estamos aguardando as novas regras eleitorais. Vamos ver como as coisas vão ficar e, depois, voltaremos à prancheta. É lógico que queremos aumentar a bancada federal [hoje com 8 deputados]. E o que entusiasma a gente neste momento é que o corte que temos hoje é muito mais promissor do que em 2018. Temos mais de mil pessoas inscritas em nosso processo seletivo para concorrer no ano que vem e já temos uma bancada, pessoas que estão indo para as suas reeleições. Aumentar a bancada federal será a nossa grande prioridade.

Qual a avaliação que você faz do governo de Romeu Zema em Minas Gerais?

Ele pegou um dos estados mais difíceis para consertar depois da terra arrasada que o PT deixou e uma bancada de apoio pequena na Assembleia Legislativa. Ele pegou uma situação complexa, mas realizou feitos relevantes, como o acerto dos salários dos funcionários públicos e o acordo com a Vale [em relação ao desastre de Brumadinho].

O Zema é bem avaliado e tem feito um governo bastante diplomático. As pessoas gostam de me perguntar por que ele não critica o Bolsonaro. Eu respondo: ‘Gente, no fundo, o Zema, como representante de um estado, está fazendo mais ou menos o que a gente esperava que o Bolsonaro fizesse com a China, por exemplo. O Zema está pensando nos interesses dos mineiros. A gente tem que separar o que é o partido do que é um governador.

 

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