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A Europa dos 750 bilhões de euros é um pesadelo para a direita soberanista

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Depois de quatro dias de negociações duríssimas em Bruxelas, com direito a gritos, desabafos no Twitter, portas batidas e reuniões paralelas, o Conselho Europeu, composto pelos governantes dos países da União Europeia, aprovou que a Comissão Europeia, encarregada de administrar o bloco, emitisse títulos de dívida pública para financiar um fundo de recuperação econômica pós-pandemia — os eurobonds ou “coronabonds”, como foram apelidados. É a primeira vez na história que um grupo de países assumirá uma dívida pública conjunta. Como noticiado, o valor da emissão será de 750 bilhões de euros. Desse total, 390 bilhões serão destinados como subvenção às nações mais atingidas pela pandemia e o restante, 360 bilhões, será distribuído na forma de empréstimos a juros de pai para filho.

Na proposta da Comissão Europeia (leia-se Alemanha e França), seriam 500 bilhões de euros em subvenções e 250 bilhões em empréstimos. No entanto, as nações “frugais” do Norte da Europa, capitaneadas pelo primeiro-ministro holandês Mark Rutte, conseguiram diminuir o valor das subvenções. Além disso, por pressão deles, o uso do dinheiro em cada país será fiscalizado minuciosamente pelos ministros da Economia dos países do bloco e um “freio de emergência” poderá ser acionado quando ocorrer algo de errado. São as formigas do Norte da Europa controlando as cigarras do Sul, normalmente avessas a responsabilidades fiscais muito estritas.

Os “frugais” obtiveram também um bom desconto na contribuição feita anualmente à União Europeia — um troféu a ser levado para casa, a fim de fazer frente à fúria dos políticos antieuropeistas, que tentarão mover os Alpes para torpedear a decisão do Conselho Europeu nos parlamentos nacionais e no parlamento europeu. O troféu talvez não seja suficiente no caso da Holanda. Rutte terá de lutar bravamente para manter o país no bloco que os holandeses ajudaram a fundar. Apesar da fama de mau recém-angariada em Bruxelas, ele é a favor de o país permanecer na União Europeia.

Ninguém disse como os 390 bilhões de euros de subvenções serão pagos a quem os emprestará. A única maneira de governos criarem receitas é aumentando impostos, de preferência sobre quem pode pagá-los — neste caso, ao que parece, serão principalmente as gigantes americanas da área digital, que até agora contam com a proteção do Congresso americano para burlar o Fisco nos diferentes países em que atuam, numa edição atualizada da política do grande porrete de Theodore Roosevelt.

O que é certo e líquido, com o perdão do trocadilho, é que a Europa honrará o compromisso a ser assumido com os eurobonds, porque tem como maior fiadora a Alemanha, a quarta economia mundial e certamente uma das mais sólidas do Ocidente. A primeira-ministra Angela Merkel, a princípio contrária à emissão dos títulos de dívida europeia, percebeu a tempo que a máquina exportadora alemã poderia quebrar, e quebrar feio, se os seus vizinhos, grandes clientes importadores, ficassem sem dinheiro (Berlim também teve de se render aos fatos domésticos na crise da Grécia, que quase arrastou consigo bancos alemães alavancados nos títulos putrefatos de Atenas). Houve agora alguma solidariedade da parte de Merkel com Itália, Espanha e França? Sem dúvida, mas não foi apenas o mais nobre dos sentimentos que a levou a aceitar que a Alemanha se tornasse garantidora de uma dívida de 750 bilhões de euros, dos quais o país não precisa nem mesmo de um centavo.

Ao embarcar no trem do eurobond, Merkel acabou garantindo a permanência de Giuseppe Conte à frente do governo da Itália — ele deverá levar mais de 200 bilhões de euros para casa — e deu novo sopro de vida ao francês Emmanuel Macron, que, além de poder continuar a posar de grande líder europeu, terá muito dinheiro para esfregar na cara dos opositores internos que cada vez aumentam mais. Quanto a Hungria e Polônia, os seus governos autoritários — alvos dos “frugais” — também ganham uma boa sobrevida graças à bufunfa bilionária. A Europa pode ser mãe e madrasta, a depender da geografia. Seja como for, ela deu um grande passo em direção a um modelo federativo. Depois da união monetária, surge no horizonte a união fiscal que deveria ter sido feita quando se adotou a moeda única. A Europa dos 750 bilhões de euros é um pesadelo para a direita soberanista.

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