Brasil e Chile cometeram os mesmos erros, diz pesquisadora

Brasil e Chile cometeram os mesmos erros, diz pesquisadora
Reprodução/O Antagonista/Zoom

O Chile voltou a ter novos surtos da pandemia porque cometeu os mesmos erros do Brasil. A avaliação é da infectologista Claudia Cortes, da Universidade do Chile.

O Chile é um dos líderes mundiais em vacinação. Na noite desta terça (6), aparecia em 5º lugar no ranking do New York Times, tendo aplicado a 1ª dose em 37% de sua população. À frente, estavam apenas Seicheles, Butão, Israel e Reino Unido.

Em entrevista a O Antagonista, Cortes afirmou que o novo surto no Chile se deve a vários fatores. “Muitas coisas feitas de forma incorreta nos levaram aonde estamos agora”, diz. “A primeira  foi que no nosso verão, em janeiro, fevereiro e meados de março, depois de muitos meses de estarmos em lockdown e com muitas restrições, o governo abriu e deu permissão para viagens pelo país para as férias. E cerca de 5 milhões de pessoas viajaram  e levaram o vírus para toda parte”.

Em segundo lugar, diz a pesquisadora, contribuiu para a propagação do vírus a estratégia de comunicação das autoridades. “Eles iam ao aeroporto para receber cada remessa de vacinas, e a mensagem que transmitiam é que a pandemia acabaria muito em breve. E isso foi durante o verão. Então, as pessoas pararam de se cuidar, pararam de usar máscaras, começaram a fazer muitos encontros, formar multidões e ir a restaurantes”.

Por volta do fim de fevereiro e começo de março, os números da pandemia voltaram a subir no Chile. Mesmo assim, o governo autorizou a reabertura de cassinos, restaurantes, academias e templos. “A comunicação foi muito confusa”, afirma.

Em quarto lugar, o Chile reabriu as fronteiras em outubro. Muitos chilenos gostam de passar férias no Brasil. Hoje, vários deles estão infectados com a variante P.1, identificada primeiro em Manaus.

“Esse triunfalismo da vacina, mais as férias, mais as novas variantes, formaram uma tempestade perfeita”, diz Cortes. “Sim, estamos fazendo muita vacinação, o que é muito bom, mas os números de casos novos estão crescendo cada vez mais”.

Além disso, ressalta Cortes, as vacinas atingem seu pleno efeito apenas duas semanas depois de aplicada a 2ª dose. A pesquisadora estima ainda que a imunidade de rebanho seja atingida a partir de 80% da população vacinada, número que o Chile ainda está longe de alcançar. “Vamos chegar lá, mas provavelmente no fim do [1º] semestre, não no meio do semestre”.

Sobre a Coronavac, que também é a principal vacina aplicada no Chile, Cortes diz que pelo menos na população chilena, nossos números são muito bons em termos de imunogenicidade”, desde que “depois da segunda dose”. Ela acrescenta que autoridades chilenas de saúde já discutem aplicar uma terceira dose, mas não há evidência científica ainda em favor disso.

“Vocês no Brasil e nós aqui no Chile estamos cometendo os mesmos erros”, diz a pesquisadora. “Você vê muita gente nas praias, em festas clandestinas, e sem cuidar de si. Sabemos que isso [a pandemia] vai acabar, não vai durar para sempre, mas até que 80% da população seja vacinada, ainda precisamos (…) evitar multidões, lavar as mãos e usar a máscara. Essa é a ‘vacina’ até que a gente consiga a vacina de verdade”.

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