Kalashnikov contra o humor e as liberdades do Ocidente

A sede do jornal satírico Charlie Hebdo sofreu hoje um ataque terrorista. Dois muçulmanos fundamentalistas mascarados, vestidos de preto, com coletes à prova de balas e armados de fuzis Kalashnikov invadiram a redação do jornal no centro de Paris e mataram ao menos doze pessoas e feriram onze, das quais quatro gravemente. Antes de abrirem fogo, mandaram que o chargista Stéphane Charbonnier, autor de caricaturas de Maomé, se identificasse. Disseram pertencer à Al-Qaeda. Enquanto atiravam, ambos davam vivas a Alá, em árabe. Na fuga, eles trocaram tiros com policiais por duas vezes. Algumas pessoas afirmaram ter visto um terceiro homem mascarado, na saída do prédio do jornal.
O ataque ao Charlie Hebdo foi o pior já perpetrado na França, desde os anos 60. Entre os mortos contabilizados até o momento, há dez jornalistas e dois policiais. O segundo policial, ferido na calçada durante a fuga dos terroristas, recebeu um tiro na cabeça, a frio, de um deles — a execução foi registrada por uma câmera. Ao voltar para o carro, a dupla de assassinos gritou “Vingamos o Profeta Maomé!”, “Matamos o Charlie Hebdo!”, em francês perfeito.
O presidente François Hollande esteve no local. “A França está em choque”, disse Hollande. O presidente revelou que a sede do jornal estava sendo vigiada pela polícia. Não o suficiente, está claro. Hollande fez uma declaração pela televisão, depois de finalizado o balanço da carnificina. Pediu a união nacional e garantiu que a França não será derrotada. 
O jornal já havia sido atacado em 2011, quando a antiga sede foi queimada por um coquetel Molotov, por causa da edição que trazia o profeta Maomé como editor-chefe — uma forma de satirizar a vitória do partido islâmico Ennhada, na Tunísia. O Charlie Hebdo, na ocasião, trouxe na capa um trocadilho com o nome da lei islâmica Sharia  (“Charia Hebdo”) e um desenho de Maomé que dizia “Cem chibatadas se vocês não morrerem de rir!”.
Paris está em alerta máximo. O temor é de que o comando terrorista — é assim que o grupo está sendo tratado, dado o profissionalismo da barbárie — possa atacar outros locais. Quarenta pessoas na capital francesa, boa parte deles jornalistas, estão sob proteção especial.
O desenhista Stéphane Charbonnie, o Charb, está morto. Sua cabeça havia sido colocada a prêmio em 2013, pela Al-Qaeda, mas ele e seus colegas jamais se dobraram ao medo. Outros três desenhistas pereceram: Jean Cabut, ou Cabu, Bernard Verlhac, conhecido como Tignous, e Georges Wolinski, todos mitos entre os chargistas europeus. De fato, os terroristas mataram o Charlie Hebdo. Eles esperaram até que os quatro chegassem à redação, para a reunião de pauta semanal.
As autoridades francesas esperavam um ataque terrorista em Paris durante o Natal e o Réveillon. Passadas as festas, o programa de segurança anti-terrorista, o “Vigipirate”, foi relaxado. Um erro fatal para um país que está em guerra no Mali contra muçulmanos fundamentalistas e tem jornalistas visados pelo terrorismo islâmico.
O atentado contra o jornal satírico ultrapassa as fronteiras da França. É um atentado contra a liberdade de imprensa, de opinião e expressão, valores essenciais do Ocidente democrático.

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