Maomé não é Pikachu

A capa do novo número do Charlie Hebdo mostra Maomé com lágrimas nos olhos. Em vez de partir para o ataque, os sobreviventes do jornal preferiram retratar o profeta de maneira mais doce, mais inocente, ligeiramente kitsch – a sua versão Pikachu. A escolha é compreensível. O Charlie Hebdo sabe que, neste momento, representa muito mais do que ele próprio, e que o luto por seus cartunistas espalhou-se pelo mundo todo, abrangendo inclusive gente que, por temperamento e cultura, rejeita seu humor. Seus redatores se sentiram no dever, igualmente, de separar o extremismo religioso da religião em si, porque temem insuflar sentimentos islamofóbicos. Isso tudo vai passar. O que sempre caracterizou o Charlie Hebdo – e é o que devemos preservar – é sua irresponsabilidade, é o impulso de fazer a charge errada no momento errado. Espera-se que o jornal já esteja enxugando aquelas lágrimas nos olhos de Maomé e que amanhã, em sua edição especial, volte ao ataque.


As lágrimas de Pikachu