Não, não temos medo do terrorismo: a marcha em Paris por quem esteve lá

Este antagonista não é afeito a demonstrações de massa. Incomoda-o a personalidade unitária que elas assumem, cancelando as individualidades. Mas a gigantesca manifestação que ocorreu hoje em Paris — a maior já realizada na França, que reuniu algo em torno de 1,5 milhão de pessoas, talvez mais, impossível precisar  — foi algo completamente diferente de uma passeata tradicional. Apesar da enorme quantidade de gente, viu-se ali uma marcha de indivíduos que não perderam seus contornos, suas diferenças. Eles estavam ali para defender a liberdade de cada um ser como é, de cada um expressar o que pensa. E homenagear, é claro, os mortos do jornal satírico Charlie Hebdo, que tombaram pela causa, e os outros inocentes assassinados na sequência, carnificinas produzidas pelo fanatismo islâmico.
Na defesa da liberdade de expressão, o silêncio predominou. Cantou-se a Marselhesa, o hino francês, mas suavemente, a intervalos, sem patriotadas. Entre os slogans gritados, o mais frequente foi o simples e eloquente “Liberdade!”. Vez por outra, entoava-se um versinho apimentado que zombava dos extremistas muçulmanos: “Charlie est dans la rue; terroriste t’es foutu!”. Cartazes com a frase “Je Suis Charlie” e mensagens de união e fraternidade entre religiões e etnias misturavam-se a outros rabiscados e desenhados por adolescentes e crianças, em que texto e subtexto foram a afirmação de que não, não temos medo da barbárie, porque a civilização, pelo menos nesta parte da Europa, triunfou. Um dos cartazes que mais chamaram a atenção estava escrito em espanhol: “Abajo la muerte!”, o oposto do slogan dos fascistas da Espanha, há mais de setenta anos, que hoje se casa bem com o que vai pela cabeça doentia desses terroristas. Logo mais à frente, uma enorme boneca vestida de branco, animada por varetas, representava Marianne, a figura que simboliza a República Francesa. Ora ela dançava, ora enfrentava corvos que a ameaçavam. Este antagonista não é afeito a espetáculos com bonecos, mas o da Marianne de varetas o emocionou.
O trajeto da Place de la République até a Place de la Nation, de cerca de três quilômetros, transbordou para as vias laterais. Das janelas dos prédios, muitas enfeitadas com bandeiras, espectadores acenavam. Nos últimos quatrocentos metros percorridos pelas autoridades, ao presidente François Hollande, juntaram-se, além de políticos de quase todo o espectro político francês, perto de 50 estadistas. A chanceler alemã Angela Merkel e o presidente do Mali, o muçulmano Ibrahim Boubacar Keita, caminharam de braços dados com Hollande. O palestino Mahmoud Abbas e o israelense Benjamin Netanyahu estavam na linha de frente. O Brasil foi representado pelo seu embaixador em Paris. Devidamente representado, eu diria.
Em toda a França, calcula-se que 3,7 milhões de franceses saíram às ruas. Mais de 5% da população do país. Uma jornada e tanto. “Hoje, Paris é a capital do mundo”, resumiu Hollande. Depois, ele o primeiro-ministro Manuel Valls foram assistir a uma cerimônia solene, ao lado de Benjamin Netanyahu, na Grande Sinagoga da capital, em homenagem aos mortos nos atentados. Os quatro judeus assassinados por Amedy Coulibaly serão enterrados em Israel.


“Sou muçulmana, sou judia, sou Charlie”

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