Nove pontos que ligam Trump ao seu bolso

Eis o básico de como o seu bolso (e não seus ideais) sentirá a eleição de Trump nos EUA:

1. A partir de agora, o Brasil terá de disputar a atenção dos investidores estrangeiros com os títulos da dívida pública americana. Por mais que esses papeis paguem pouco, são considerados a renda fixa mais segura do mundo – e a tendência é que os juros, lá, subam mais rápido que o previsto;

2. Para convencer os gringos a manterem o dinheiro aqui, a isca de curto prazo é a taxa básica de juros. Provavelmente, o Banco Central terá menos margem de manobra para cortá-la, mesmo que tenhamos a desonra de ostentar a maior taxa real de juros do mundo;

3. Juros altos mantêm investidores no mercado financeiro, mas pesam sobre a economia real: seu crediário permanecerá mais caro; sua fatura do cartão de crédito continuará com juros escabrosos; as empresas continuarão reclamando para investir e ampliar a produção e, por tabela, o nível de emprego;

4. Setores que dependem de crédito para vender (e, portanto, da taxa de juros), como varejo, automotivo e imobiliário, continuarão enfraquecidos. A forte queda dessas empresas na Bolsa, hoje, é apenas a demonstração do óbvio;

5. Mas nem todos os estrangeiros morderão a isca dos juros altos no Brasil. Como se vê, eles passaram o dia desfazendo posições aqui, trocando os reais por dólares, e levando-os para fora. O efeito imediato é a alta do câmbio;

6. Um dólar caro pesa sobre a inflação, já que parte de nossos produtos é importada e outra parte é dolarizada (commodities, por exemplo). A recente tendência de queda de preços pode estancar ou, pelo menos, atenuar;

7. De um lado, pagaremos mais caro por importados; de outro, o Banco Central terá um argumento a mais para segurar os juros onde estão: combater a inflação gerada pelo câmbio;

8. Há quem diga que isso será bom para os exportadores (e as ações dessas empresas dispararam na Bolsa, hoje); mas, se Trump efetivamente adotar uma política comercial mais protecionista, como prometeu, não adiantará muito um dólar caro – simplesmente não teremos muito como vender para a maior economia do planeta;

9. Da mesma forma que Trump pode dificultar a entrada de produtos brasileiros nos EUA, mercadorias de outros países também poderão enfrentar problemas. Isso significa que a briga dos exportadores pelos mercados mais abertos tende a se acirrar, reduzindo suas margens. Novamente, não adianta ter um câmbio elevado, se é preciso cortar o preço para exportar.

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