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A imparcialidade em tempos de Sergio Moro

É possível fazer análises objetivas quando se tem lado, mas o primeiro passo para isso é reconhecer a própria parcialidade
A imparcialidade em tempos de Sergio Moro
Foto: Adriano Machado/Crusoé

Depois da entrevista de Sergio Moro (foto) a William Waack, na CNN Brasil, houve uma rodada de análise com jornalistas. Uma das participantes deu de barato, como se fosse assunto liquidado, que a Lava Jato havia sido uma operação inteiramente política — no que foi rebatida por outro jornalista. A rodada de análise terminou ali, sem discussão, talvez mesmo por falta de tempo.

Com a maior visibilidade do ex-juiz e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, ele também se tornou assunto de programas da GloboNews. Num deles, um sociólogo que virou jornalista político afirmou que, se João Doria e Sergio Moro fizerem aliança, o governador terá de abraçar a ideia de que não houve “conluio” entre o ex-juiz e os então procuradores da Lava Jato — como se conluio houvesse existido e ponto final.

Usei os dois casos apenas para ilustrar um fenômeno abundante e condenável. Acho muito mais honesto quem ataca Sergio Moro frontalmente, ainda que com argumentos desonestos, sem esconder o lado. Assim como também quem defende com muito entusiasmo o ex-juiz, sem mascarar a sua simpatia. Fica tudo mais claro para o leitor ou o espectador, como deve ser.

O que é inconcebível é contrabandear, como análise objetiva, a sua própria parcialidade. É usar a verdade para dizer meias verdades ou até mesmo mentiras (aspecto pernicioso, aliás, que também afeta certo colunismo noticioso, mas não adentrarei o assunto). Exemplifico, se ainda não deixei claro: o STF, sob a batuta de Gilmar Mendes, julgou Sergio Moro parcial nos processos envolvendo Lula e anulou as condenações do chefe petista. Esse é um fato objetivo. Mas também é um fato objetivo e sobejamente divulgado que o tribunal foi movido por razões políticas para fazê-lo e que as mensagens roubadas de Deltan Dallagnol, usadas como “reforço argumentativo” para a anulação, foram objeto de interpretações bastante questionáveis. Por que só citar o primeiro fato, como se o STF fosse uma corte impermeável a conveniências de integrantes seus, e omitir o segundo? Porque se tem lado e não se quer mostrar qual é ele, para que se pareça imparcial.

É possível fazer análises objetivas quando se tem lado, mas o primeiro passo para isso é reconhecer a própria parcialidade. Talvez esse seja o máximo de imparcialidade que um jornalista honesto pode alcançar nesse campo. Recomendo.

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