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A máquina brasileira de fazer tragédias

Brasil é um prodígio construtor de desastres. Nós praticamente temos uma linha de produção
A máquina brasileira de fazer tragédias
Foto: Adriano Machado/Crusoé

Neste espaço, tenho escrito semanalmente artigos analíticos sobre Direito. Em razão do fim do ano, pensei fazer um balanço a respeito do tema, mas não deu.

As ultrajantes enchentes que nesta semana massacraram o Estado da Bahia me fizeram notar o quão irrelevante seria falar de Direito, enquanto o ano de 21 era ainda martelado por mais uma tragédia.

Tragédia, aliás, esperada.

Digo esperada porque o Brasil é um prodígio construtor de desastres. Nós praticamente temos uma linha de produção. Nesse quesito, somos – e muito –  organizados. Miséria, desigualdade, falta de educação são colocados a todo momento em um mesmo recipiente, deixados marinando pelo descaso das autoridades até o ponto certo e… voilà!

Acidentes de todos os tipos são alimentados pela inoperância da administração pública, represas apresentam infiltrações e rachaduras sob o silêncio bem pago de empresas corruptas, epidemias se instalam em meio à estupidez grosseira de um presidente que foi – e continua sendo – omisso.

Parte significativa de nossos mortos pela Covid foi enterrada nesse ano em razão da vacinação tardia da população. E pretende o governo federal – com o perdão do trocadilho – repetir a dose, com a hesitação demonstrada em relação à vacinação infantil, enquanto cresce o quadro mundial de hospitalizações e mortes de crianças em decorrência da doença.

Os alagamentos da Bahia não serão os únicos desse verão. Ainda contaremos muitos mortos afogados e soterrados pela lama dos solos e da gestão pública dos governos estaduais e municipais de nosso país.

A marcha previsível e ininterrupta dessas tragédias que vão sendo sorrateiramente gestadas em silêncio, como os tumores dentro de organismos doentes, nos dá a percepção nítida de que este ano foi mais um dentre os demais, e que os demais serão mais um dentre tantos outros.

E que os tantos outros não serão nenhum, enquanto nos faltar um mínimo de civilidade, de interesse pelo próximo, pelo todo, pelo comum. Nos faltar a ponte civilizatória que Heidegger tão belamente diz prometer mais vida, por se abrir do dia a dia do eu para o dia a dia do mundo.

O governador da Bahia, Rui Costa, a respeito da postura de Bolsonaro ficar alheio aos alagamentos, brincando em um parquinho de diversões em Santa Catarina, disse que esperava dele mais humanidade.

Esperava-se também, governador, mais gestão pública na Bahia, maior preparo para as recorrentes tragédias. No entanto, sem dúvida, enquanto faltar a um presidente eleito o gesto humano mínimo pouco se poderá esperar de qualquer um, de qualquer coisa.

Só importará o balanço do carrossel do presidente no parquinho, girando em torno de seu próprio umbigo, montado sobre uma parcela considerável da população, que gira também neste carrossel, sendo motor potente dessa máquina brasileira de fazer tragédias.

André Marsiglia Santos é advogado, atua na área de comunicação digital e é colunista n’O Antagonista

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