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A origem do vírus da Covid é a grande pergunta suspensa no ar

A origem do vírus da Covid é a grande pergunta suspensa no ar
Reprodução/Janis Mackey Frayer/NBC/Twitter

Ao escrever que a China se comporta de maneira condenável ao retardar o envio da substância essencial para a fabricação de vacinas pelo Brasil, como forma de retaliação às declarações inconsequentes de Jair Bolsonaro sobre o país, fiz menção rápida à carta que 18 cientistas renomados publicaram em 14 de maio na revista Science. A carta não teve a devida atenção na imprensa nacional. Boa parte dos grandes veículos a ignorou como se fosse coisa de somenos. Não é.

Da parte deste site, foi desleixo pura e simplesmente, mas talvez não tenha sido da parte da concorrência que deixou passar a carta em branco. Uma explicação possível é que, neste momento emburrecedor pelo qual passamos, qualquer notícia que possa dar ensejo a que bolsonaristas justifiquem as suas teorias conspiratórias deve ser evitada. A burrice consiste em fazer o mesmo que essa gente faz: mergulhar fatos no sopão ideológico de maneira tal que, completamente encharcados, não possam ser secados pela luz da razão.

A luz da razão está refletida na carta assinada por cientistas de Harvard, MIT, Stanford, Yale, Berkeley, Cambridge, entre outros grandes centros de pesquisa. Eles apontam a falta de informações confiáveis sobre a origem do vírus da Covid e pedem que uma investigação internacional independente seja realizada.

Transcrevo a carta na íntegra:

“Em 30 de dezembro de 2019, o Programa de Monitoramento de Doenças Emergentes notificou o mundo sobre uma pneumonia de causa desconhecida em Wuhan (China). Desde então, cientistas têm feito notáveis progressos para entender o agente causador, o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (Sars-Cov-2), a sua transmissão, patogenia e mitigação por vacinas, terapêuticas e intervenções não-farmacêuticas. Ainda mais investigação é necessária para determinar a origem da pandemia. Ambas as teorias sobre a liberação acidental de um laboratório e transbordamento zoonótico permanecem viáveis. Saber como a Covid-19 surgiu é fundamental para informar as estratégias globais de redução dos riscos de surtos futuros.

Em maio de 2020, A Assembleia Mundial da Saúde solicitou que o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) trabalhasse em estreita colaboração com parceiros, a fim de determinar a origem do SARS-COV-2. Em novembro, os Termos de Referência para um estudo conjunto de China-OMS foram divulgados. Informação, dados e amostras para a primeira fase do estudo foram coletados e resumidos pela metade chinesa da equipe; o resto da equipe construiu a análise. Embora não houvesse nenhuma descoberta que apoiasse claramente um transbordamento natural ou um acidente de laboratório, a equipe avaliou um transbordamento zoonótico de um hospedeiro intermediário como “muito provável”, e um acidente de laboratório como “extremamente improvável”. Além disso, as duas teorias não receberam consideração equilibrada. Apenas 4 das 313 páginas do relatório e os seus anexos abordam a possibilidade de uma acidente de laboratório. Notadamente, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreysus, comentou que a consideração do relatório de evidências que apoiam um acidente de laboratório era insuficiente e se ofereceu para fornecer recursos adicionais para uma avaliação completa da possibilidade.

Como cientistas de relevante expertise, concordamos com o diretor-geral d OMS, os Estados Unidos e 13 outros países e a União Europeia que maior clareza sobre as origens dessa pandemia é necessária e factível de ser alcançada. Devemos assumir seriamente ambas as hipóteses sobre transbordamento natural e laboratorial até que tenhamos dados suficientes. Uma investigação adequada deve ser transparente, objetiva, orientada por dados, incluindo de grande experiência, sujeita a supervisão independente e responsavelmente gerida para minimizar o impacto de conflitos de interesse. Agências de saúde pública e laboratórios de pesquisa igualmente precisam abrir os seus registros para o público. Investigadores devem documentar a veracidade e a proveniência de dados a partir dos quais análises são conduzidas e conclusões tiradas, de modo que as análises sejam reproduzíveis por especialistas independentes.

Por fim, nestes tempos de infeliz sentimento antiasiático em alguns países, notemos que no início da pandemia foram médicos chineses, jornalistas e cidadãos que compartilharam com o mundo informação crucial sobre a propagação do vírus — frequentemente, com grande custo pessoal. Devemos mostrar a mesma determinação e desapaixonado discurso baseado na ciência sobre esse difícil, mas importante assunto.”

Em resumo, segundo os signatários da carta e o próprio diretor-geral da OMS, a hipótese de que o vírus da Covid possa ter escapado de um laboratório — no caso, o do Instituto de Virologia de Wuhan — não foi suficientemente estudada. É um espanto que apenas 4 das 313 páginas do relatório produzido pela China e equipe internacional a serviço da OMS tenham sido dedicadas a essa possibilidade. Pequim tentou esconder a pandemia, perseguindo os médicos que soaram o alarme, e desde o final de 2019 coloca obstáculos intransponíveis para que investigadores independentes se debrucem sobre todos os dados que possam apontar para a origem da propagação do vírus. Os especialistas da OMS enviados a Wuhan não tiveram liberdade para vistoriar o laboratório do instituto de virologia da cidade, onde são realizadas pesquisas bastante arriscadas com coronavírus provenientes de morcegos. Como diz a carta, tiveram de contar apenas com as informações fornecidas pelos cientistas chineses que compunham metade — metade, repetindo — da equipe de investigação. Chineses não são exatamente os reis da transparência.

Some-se a esse quadro descrito na carta publicada pela Science o relatório da inteligência americana ao qual o Wall Street Journal teve acesso, como noticiamos ontem. De acordo com o relatório, técnicos do laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan teriam ficado doentes e buscado ajuda hospitalar em novembro de 2019, pouco antes de o coronavírus se espalhar pela região — o primeiro caso oficial da doença foi registrado em 8 de dezembro de 2019, também na cidade de Wuhan. Os sintomas apresentados pelos três pacientes, segundo o relatório, seriam semelhantes aos da Covid. A menos que todos tenham contraído a doença no mercado de venda de animais vivos da cidade chinesa, o que parece improvável, as evidências apontam para o instituto no qual trabalham.

Diante da paisagem opaca (ou encharcada, a metáfora é preferência do leitor), Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos e conselheiro da Casa Branca para assuntos relacionados a Covid, disse em entrevista à diretora do site PolitiFact’s não ter mais certeza de que a pandemia teve origem natural. Ele afirmou: “Não estou convencido sobre isso, acho que devemos continuar a investigar o que ocorreu na China”. Especificamente sobre a hipótese de que o vírus foi transmitido de um animal para humanos, Anthony Fauci disse que “pode ter sido alguma outra coisa, e precisamos descobrir. Essa é a razão pela qual afirmo que sou inteiramente a favor de qualquer investigação sobre a origem do vírus”. Tendo a crer que a mudança de posição de Anthony Fauci deve ter base razoavelmente sólida, para além da simples opinião.

Cientistas renomados que publicaram uma carta na Science, inteligência americana, governos de grandes democracias ocidentais e o conselheiro do presidente Joe Biden para assuntos relacionados a Covid mostram, portanto, que não se pode afirmar com segurança que a origem do vírus está no mercado de animais vivos de Wuhan, teoria comprada pela maior parte da imprensa. Ou que o monstro invisível que nos atormenta tenha saído diretamente de uma batcaverna. O Instituto de Virologia da cidade chinesa não está descartado como o lugar no qual o vírus se originou por acidente, eis o resumo da ópera chinesa. Há uma grande pergunta suspensa no ar até o momento e isso nada tem a ver com alucinações conspiracionistas do bolsonarismo. Isso tem a ver com ciência. É impensável que a origem da maior crise sanitária mundial dos últimos cem anos permaneça, por obra de uma ditadura, sem explicação convincente.

Leia mais: Pois é, nada mudou da esquerda para a direita.
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