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A PF não é de Bolsonaro; a PF é do Brasil

A suspeita de Omar Aziz de que a corporação foi instrumentalizada para esvaziar a CPI da Covid insere-se no contexto da politização da Polícia Federal
A PF não é de Bolsonaro; a PF é do Brasil
Foto: Reprodução

A suspeita levantada ontem pelo senador Omar Aziz, presidente da CPI da Covid, de que a Polícia Federal vem abrindo investigações sobre depoentes às vésperas de eles prestarem esclarecimentos à comissão parlamentar, a fim de lhes propiciar que peçam liminares ao STF para que permaneçam em silêncio e não se autoincriminem nos inquéritos policiais, é de enorme gravidade.

Disse o senador: A nossa depoente de hoje, para vocês terem uma ideia, foi ontem ouvida pela Polícia Federal – foi ouvida lá ontem! Inexplicavelmente, o senhor Maximiano se torna investigado um dia antes de vir depor e, inexplicavelmente, a nossa depoente de hoje também é ouvida um dia antes de vir depor”. E completou: “Não quero eu aqui fazer qualquer tipo de pensamento de que há um movimento. Longe de mim falar isso da Polícia Federal, mas é estranho e, pra mim e como pra muitos outros aqui, como jabuti não sobe em árvore, nós não podemos entender como é que são feitas essas coisas”A depoente de ontem foi Emanuela Medrades, diretora da Precisa Medicamentos, que usou o fato de ser investigada pela PF para permanecer em silêncio. A atitude fez com que a sessão fosse interrompida e a questão levada a Luiz Fux, do STF. A sessão foi retomada e fala à CPI da Covid neste momento. Francisco Maximiano é dono da Precisa.

A PF emitiu uma nota em resposta a Omar Aziz, para negar que tenha sido instrumentalizada. A investigação atende as disposições constitucionais e legais, o que inclui um prazo para a sua conclusão. A produção de provas, sobretudo a oitiva de pessoas que possam contribuir para a elucidação dos fatos, não está atrelada a outras investigações em andamento sobre o caso, ou seja, não está atrelada à CPI, diz a nota. Mas o fato é que a suspeita do senador, que deu voz ao que outros senadores também pensam, insere-se no contexto geral de politização da PF — o que, não esqueçamos, motivou a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2020, pasta à qual a corporação está vinculada.

Na famosa reunião ministerial de abril de 2020, Jair Bolsonaro deixou claro que queria “intervir” na Polícia Federal, para proteger a sua “família”. Depois da saída de Sergio Moro, ele tentou emplacar o amigo Alexandre Ramagem na direção-geral da corporação. A  nomeação foi evitada pelo STF, e Ramagem agora presta serviços na Agência Brasileira de Informação (Abin). Jair Bolsonaro, contudo, não desistiu da PF e, um ano depois, conseguiu dominar o pedaço. Em reportagem de capa, intitulada “A PF Dominada”, a Crusoé mostrou como a corporação agora está sob controle de gente de inteira confiança (pessoal) do presidente da República.

Em 9 de abril deste ano, a revista publicou o seguinte: “Bolsonaro demonstrou que a solução encontrada naquele momento (quando forçou a saída do ex-juiz da Lava Jato do governo), com a ida de seu fiel advogado-geral da União, André Mendonça, para o lugar de Moro e a indicação de um quadro técnico ligado a Ramagem para a PF, ainda não satisfazia seus anseios. Era preciso dar mais um passo para o presidente ter, de fato, uma polícia para chamar de sua. A solução foi construída politicamente nesta semana, quando ele conseguiu colocar no posto de diretor-geral um delegado essencialmente político e acostumado a lidar com as vontades de seus chefes.

Bolsonaro aproveitou a barulhenta mudança no comando do Ministério da Defesa e das Forças Armadas na semana passada para consolidar, agora de forma bem mais discreta, o desejado alinhamento da PF aos interesses do Planalto. (…) As nomeações do delegado Anderson Torres para o Ministério da Justiça e do delegado Paulo Gustavo Maiurino para o comando da Polícia Federal simbolizam uma guinada política nos setores de inteligência policial e de combate ao crime organizado no momento em que não apenas Bolsonaro, mas também seus filhos 01, 02, 03 e 04 são alvos de investigações envolvendo desde tráfico de influência a lavagem de dinheiro e corrupção.

Tanto Torres quanto Maiurino estão afastados há anos das atividades operacionais da PF e passaram as últimas temporadas ocupando cargos políticos, seja como secretários de governo, seja como assessores parlamentares. Foi nos corredores da Câmara dos Deputados, aliás, que as trajetórias de Bolsonaro, do novo ministro da Justiça e do novo diretor-geral da PF se cruzaram.” (A reportagem da Crusoé pode ser lida aqui, aberta para não assinantes).

Desde que ambos foram nomeados, os policiais que atuaram na Lava Jato passaram ao ostracismo e o combate à corrupção que envolva o poder deixou de ser prioridade — pelo menos nos casos com potencial para afetar o inquilino do Planalto ou quem orbita em torno dele. Quando o deputado Luis Miranda colocou a boca do trombone para dizer que alertara Jair Bolsonaro sobre corrupção na aquisição da vacina indiana Covaxin, e havia ouvido do presidente que ele colocaria a PF para investigar o caso, mas nada foi feito nesse sentido, expressei a seguinte dúvida em artigo: ao contrário do que afirmou Bolsonaro a Luis Miranda, teria o presidente ordenado à “sua PF” que parasse investigações em curso e cruzasse os braços? A suspeita de Omar Aziz significa, contudo, um passo além — integrantes da corporação estariam agindo ativamente para impedir que o presidente da República e aliados políticos seus possam ser implicados diretamente nos esquemas de vendas de vacinas contra a Covid ao Ministério da Saúde. Se abriu inquérito sobre a suposta prevaricação do presidente da República no caso Covaxin, foi naturalmente porque a PGR pediu — e a PGR de Bolsonaro só pediu porque a ministra Rosa Weber a obrigou.

A Polícia Federal conquistou o respeito dos brasileiros com a operação Lava Jato, depois de ter sido balcanizada pelo PT. É preciso livrá-la urgentemente de ingerências políticas. A PF não pode ser de Bolsonaro. A PF é do Brasil.

 

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