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A rendição da democracia a Lula

Este será o legado de Jair Bolsonaro: uma grande concertação e uma falta de conserto, com a volta do petista ao poder. Viva a República brasileira
A rendição da democracia a Lula
Reprodução

O Estadão publicou que três ex-ministros da Defesa, Nelson Jobim, Raul Jungmann e Celso Amorim (que foi também chanceler), e um ex-ministro da Justiça, Tarso Genro, encontraram-se com o general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz, na sexta-feira passada, para discutir a defesa da democracia no Brasil. Eu fico espantado com a quantidade de gente que quer defender a democracia no Brasil. Espantado porque a democracia no Brasil, apesar dos ataques de Jair Bolsonaro às instituições, independentemente da péssima qualidade média dos integrantes delas, já havia se mostrado sólida o suficiente na época em que PT ocupava o Palácio do Planalto: resistiu bem ao projeto de poder autoritário da organização, que minou com dinheiro sujo as votações no Congresso e as campanhas eleitorais. E estou ainda mais espantado porque, entre os que querem defender a democracia, há justamente petistas.

O encontro de expoentes da esquerda e centro-esquerda com o militar da reserva, ex-integrante do governo de Jair Bolsonaro e adepto da Terceira Via, foi organizado por um instituto criado por Tarso Genro. Tudo transcorreu de maneira muito simpática. A parte mais interessante, pelo que li no Estadão, foi quando abordaram o tema da corrupção. Celso Amorim disse que ele não deveria ser usado como instrumento contra oponentes. “Eu acho bom, general, o senhor estar no debate político, que o senhor traz uma experiência muito grande. É importante ouvirmos sua experiência e que isso seja feito com honestidade intelectual”, acrescentou. Santos Cruz respondeu: Achar que a corrupção seja um grande problema não significa usar combate à corrupção só como ferramenta política contra seu adversário e agir com tolerância para com aqueles de quem a gente é partidário” — que é exatamente o que faz o PT.

A conversão dos petistas à democracia comove. Como ministro da Justiça de Lula, Tarso Genro empenhou-se em dar guarida ao terrorista de extrema-esquerda Cesare Battisti, que participou de assassinatos de gente inocente na Itália, durante a década de 1970. Ele espalhava por redações de jornais a ideia de que a Justiça de uma das mais vigorosas democracias ocidentais havia cometido uma arbitrariedade contra Cesare Battisti. Anos depois, com o terrorista devidamente enjaulado na Itália, onde não há ex-condenados, o ex-condenado Lula pediu desculpas ao povo italiano, em entrevista a uma emissora italiana no início deste ano, por ter abrigado o assassino que confessou os seus crimes depois de preso — e Lula pôs toda a culpa em Tarso Genro, como se tivesse sido enganado (lembre-se: Lula nunca sabe de nada). Para além de ter protegido um terrorista assassino e antidemocrático, o ex-ministro da Justiça petista é um entusiasta do “controle social da mídia”, da mesma forma que o chefão do seu partido. No cargo, atacava a imprensa, por causa do noticiário desfavorável ao PT, e chegou a dizer, em 2013, num evento promovido por sindicalistas, que, se fosse para respeitar a Constituição, “mais de 80% da programação de rádio e TV deveria sair do ar”, por transmitir “notícia ideologizada ou promover a violência, o sexismo ou a discriminação”. O moralismo é o primeiro refúgio dos censores.

Celso Amorim é outro democrata empedernido, como se dizia antigamente no jornalismo. Tanto que, como chanceler, atuou para que o Brasil se tornasse parceiro da ditadura de Hugo Chávez, em quem enxergava um democrata. Quando o venezuelano aceitou a realização de um plebiscito revogatório do seu mandato, em 2004, Celso Amorim afirmou que o fato comprovava “uma vocação democrática” de Hugo Chávez. Plebiscito vencido, o bolivarianismo só fez aperfeiçoar a democracia na Venezuela, como é público e notório, para a alegria do PT e a difusão livre dos seus valores civilizatórios. Quando Donald Trump deu a entender que poderia intervir no país agora sob o comando do tirano Nicolás Maduro, Celso Amorim disse que defender a Venezuela era defender o Brasil. Deve ter sido só por convicções geopolíticas, assim como o inextinguível amor petista por Cuba.

Do lado da centro-esquerda, o encontro contou com um homem que conhece bem o âmago autoritário do PT. Como ministro da Segurança Pública de Michel Temer, Raul Jungmann teve de negociar a rendição de Lula à PF, em 7 de abril de 2018, naquela patacoada promovida pelo chefão da organização na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Ironicamente, homem de diálogo genuíno, Raul Jungmann negocia a rendição da democracia brasileira a Lula. Quanto a Nelson Jobim, ele é um pêndulo entre PSDB e PT. Foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, antes de ser nomeado para o STF pelo tucano, e ministro da Defesa de Lula e Dilma Rousseff. Hoje, é sócio do Banco BTG Pactual, de André Esteves, banqueiro muito interessado nos destinos do Brasil e que chama carinhosamente o associado ilustre de “meu guarda-costas jurídico”. Ativo nas costuras entre todos os lados da quadratura do círculo, Nelson Jobim promoveu recentemente um encontro entre Fernando Henrique Cardoso e Lula. Para ele e André Esteves, a Terceira Via é Lula.

Ao final do encontro organizado pelo seu instituto, Tarso Genro afirmou: “Participando de diálogos como esse, retomo a fé de construir uma grande Nação democrática e republicana. Esse diálogo me entusiasma para um grande processo de concertação estratégica em torno dos valores da democracia e da preservação da República”.

Este será o legado de Jair Bolsonaro: uma grande concertação e uma falta de conserto, com a volta de Lula ao poder. Viva a República brasileira.

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