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Bolsonaro sem medo de ser feliz

Se é verdade que inexistem inimigos em política, no Brasil rebaixamos o que seria pragmatismo à sua versão mais rasteira e cafajeste
Bolsonaro sem medo de ser feliz
Foto: Alan Santos/PR

Eu finalmente entendi o que quer dizer o slogan “sem medo de ser feliz”, criado pelo PT. É sem vergonha de não ter vergonha, e vale para todos os políticos brasileiros. Se é verdade que inexistem inimigos em política, não importa a latitude, no Brasil rebaixamos o que seria pragmatismo à sua versão mais rasteira e cafajeste. Assim como Lula aliou-se a quem antes chamava de picareta e outros epítetos impublicáveis, Jair Bolsonaro traiu o seu eleitorado, excluindo o gado cada vez mais reduzido, ao transformar o Centrão em governo e o governo num sertão de ideias e reputações ilibadas.

A falta de medo de ser feliz é ampla, geral e irrestrita entre os políticos brasileiros, como demonstra o vídeo de quatro anos atrás, que republicamos hoje, no qual Ciro Nogueira, o novo chefão da Casa Civil, chama Jair Bolsonaro de “fascista” e afirma que Lula “foi o melhor presidente da história do país”. Repita-se o que disse o presidente do Progressistas e expoente do Centrão, em 2017, quando a candidatura de Jair Bolsonaro a presidente da República começou a ser ventilada:

“O Bolsonaro eu tenho restrição porque é um fascista, preconceituoso. É muito fácil ir para a televisão e dizer que vai matar bandido, mas isso não é para um presidente da República. O presidente da República é a pessoa que vai cuidar de gerar emprego e renda, que vai cuidar da saúde, da infraestrutura, do saneamento. O Jair Bolsonaro não tem capacidade de fazer isso. Ele nunca geriu nada, nunca mostrou trabalho.”

“Lula foi o melhor presidente da história deste país, especialmente para o Nordeste e para o Piauí. Não me vejo em uma eleição votando contra o Lula. Por tudo o que ele fez. Ele tirou a miséria desse povo. Ele foi decisivo no combate à fome, ele fez o maior programa habitacional do mundo, que é o Minha casa, minha vida.”

Como Jair Bolsonaro continua com as mesmas posições de quatro anos atrás, a lógica aristotélica conduz à conclusão de que Ciro Nogueira, portanto, agora é “fascista” e que o presidente da República, ao abrigar o sujeito que o atacou, aceita ser rotulado como tal. O silogismo seria perfeito, não fosse a falta de medo de ser feliz o imperativo categórico nestas plagas.

Para justificar as alianças que fez com coronéis quando era presidente, Fernando Henrique Cardoso, que se vendia como arauto da modernidade, recorreu ao pensador alemão Max Weber, que diferenciava “a ética da convicção”, o conjunto de valores que molda a ação do político na esfera privada, da “ética da responsabilidade”, que direciona as suas decisões quando está no governo, visando ao bem geral. Essa diferenciação existe, mas só até certo ponto. De qualquer forma, bons os tempos em que os desprovidos do medo de ser feliz ainda se davam ao trabalho de passar maquiagem nessa coisa toda.

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