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Deixe Milton Friedman fora dessa, Paulo Guedes

Na sexta-feira, o ministro disse que o Auxílio Brasil é o "protótipo de um programa de renda mínima", inspirado nas ideias do economista liberal americano. Nada está mais longe da verdade
Deixe Milton Friedman fora dessa, Paulo Guedes
Foto: Adriano Machado/Crusoé

Na última sexta-feira, enquanto tentava convencer a audiência de que sua concordância em furar o teto de gastos foi uma coisa, assim, totalmente normal e corriqueira, o ministro Paulo Guedes (foto) disse que o Auxílio Brasil de 400 reais, com 100 reais de recursos extra-teto, nada mais era que “o protótipo de um programa de renda mínima”. 

Isso mostra que o seu discurso foi uma coisa, assim, para engambelar. 

Guedes fez de conta que a medida eleitoreira de agora tem alguma relação com uma ideia incorporada ao programa de governo do candidato Jair Bolsonaro, em 2018. Lá estava escrito: “Acima do valor do Bolsa Família, pretendemos instituir uma renda mínima para todas as famílias brasileiras.”

A inspiração, obviamente, não vem da esquerda, muito menos de Eduardo Suplicy, o eterno paladino da renda básica universal. Vem do libertário Milton Friedman – citado, aliás, nominalmente por Guedes na coletiva de sexta-feira. Nosso ex-superministro sempre tratou o economista americano como um dos seus gurus. 

Nos anos 1960, Friedman começou a defender a tese de que, em vez de programas assistencialistas, países capitalistas deveriam instituir um imposto de renda negativo. 

Funcionaria assim: todos os cidadãos preencheriam anualmente um formulário de imposto de renda. Aqueles que em determinado ano tivessem rendimentos inferiores a um valor mínimo de subsistência, receberiam do governo uma porcentagem da diferença (e não toda a diferença) entre os seus ganhos e aquele piso pré-estabelecido. Se no ano seguinte a renda do sujeito fosse maior, a suplementação se reduziria. E assim por diante. 

Friedman acreditava que esse mecanismo impediria que houvesse miseráveis no país, sem transformar as pessoas em dependentes eternas do estado.

Isso não tem absolutamente nada a ver com o Auxílio Brasil. Esse filhote do casamento entre Guedes e Bolsonaro, em primeiro lugar, não é universal, ou seja, não vai atender a “todas as famílias brasileiras”. 

Ele também estabelece um valor idêntico, de 400 reais, para as famílias beneficiárias. Isso o transforma em um programa assistencialista clássico, daqueles que o ministro costumava abominar. Lembremos que ele dizia que PT e PSDB haviam condenado o Brasil a 30 anos de frouxidão social-democrata. Ele e Bolsonaro, que são homens de verdade, nos apresentariam ao capitalismo real. 

Finalmente, e mais importante, esse não é um programa de estado, mas sim o programa de um governo hoje impopular, desenhado para ser pago apenas por doze meses – em meio aos quais, vejam só que interessante, acontece uma eleição presidencial. 

Eu disse no começo que o discurso de Paulo Guedes visava a engambelar o distinto público. Agora me ocorre que também deve existir aí uma boa dose de auto-engano. Paulo Guedes deve achar que o Auxílio Brasil, e a tramoia fiscal implementada para viabilizá-lo, de fato têm algo a ver com suas propostas de 2018. Afinal, não deve ser fácil trair assim tão miseravelmente as próprias ideias.

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