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Dilma é uma mancha de gordura

Os empresários e banqueiros que conversam com Lula precisam dizer que, pelo amor de Janja, não dá para incluir a ex-presidente na autolavagem geral do PT
Dilma é uma mancha de gordura
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Se há crítica que não se pode fazer ao Partido dos Trabalhadores é o da falta de método. A lavagem midiática do seu chefão começou ainda na pantomima por ocasião da sua prisão, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (Lula tem, afinal, berço), e prosseguiu com a teatralização da sua ausência nas eleições de 2018 e as entrevistas que deu na condição de presidiário. O hackeamento do celular de Deltan Dallagnol, episódio sobre o qual talvez nunca saibamos a verdade inteira, e a publicação das mensagens dele com procuradores da Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro pela imprensa imparcial petista deram pretexto a que se demonizasse a operação e o STF libertasse o então condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Para que se consumasse, o fato jurídico-teratológico foi precedido pelo linchamento internacional da Lava Jato, visto que o PT mantém vínculos estreitos com boa parte da esquerda europeia e americana.

Solto, Lula agora tem a sua imagem enxaguada e centrifugada para que se venda como o líder ressurrecto que veio combater o dragão da maldade, Jair Bolsonaro. O figurino com o qual tenta cativar o indistinto público está longe de ser novo: o chefão é, ao mesmo tempo, pai dos pobres e amigo dos empresários e banqueiros. A síntese morena de socialismo e capitalismo. O dom Sebastião de Garanhuns, que perdoa as elites que o injustiçaram, em prol do bem-estar do seu povo. A primeira e a terceira vias. Seguindo o manual do culto à personalidade, Lula também é o senhor virilmente rejuvenescido pelo amor de Janja e a ginástica, não necessariamente nessa ordem, como mostra a imagem do casal tirada pelo meticuloso fotógrafo oficial.

O método petista não se restringe ao grande timoneiro. Depois de ficarem no balde de trapos sujos da Lava Jato, os petistas começam a reaparecer no varal do noticiário, não mais como protagonistas de escândalos, mas como apóstolos da moralidade, evangelizadores da racionalidade e denunciantes dos descalabros. É um Humberto Costa na CPI da Covid; é um Fernando Haddad em programa de entrevistas; é uma Gleisi Hoffmann escandalizada com a miséria no Twitter. Estão todos limpinhos.

Falta colocar Dilma Rousseff nesse varal. Apesar de todos os esforços empreendidos até o momento, ela permanece mancha a conspurcar a campanha eleitoral em 2022. É verdade que já foi mancha maior, mas ainda é tão renitente quanto irritante. Não há homenagem na Sorbonne que a cancele. Se o figurino fosse inteiramente vermelho, talvez a mancha Dilma Rousseff passasse despercebida. Mas o figurino também é o da bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade, eu peço paz. Ou seja, a mancha permanece realçada. Como fazer?

Dilma Rousseff não tem personalidade camaleônica como Lula. O que resta, então, é tentar esmaecê-la, martelando que o impeachment de 2016 foi o início do que os petistas chamam de corrosão da democracia — o ensaio geral para que Lula fosse preso e Jair Bolsonaro, eleito. O método do PT consiste em acusar os seus adversários daquilo que eles, os adversários, não têm — que é, justamente, método. No site do PT na Câmara, que adotou “o partido da esperança” como slogan, há uma entrevista com Dilma Rousseff que aponta a direção. Nela, a ex-presidente — autora de uma gigantesca fraude fiscal que escondeu a real situação das contas do governo no final de 2014, permitiu a sua reeleição e afundou o país na recessão — afirma que “o golpe de 2016 é ato zero do golpe, é o ato inaugural, mas o processo continua. É o pecado original dessa crise que o país atravessa. É partir dali que se desenrola todo o processo golpista”.

E Dilma continua: O ato seguinte ao impeachment foi a prisão de Lula. Ali o que se queria inviabilizar a possibilidade de ele ser candidato. E, portanto, estaria garantido o processo de reprodução do próprio golpe. Ora, se o Lula é eleito, o golpe seria interrompido. Mas não bastou prendê-lo. Afinal, ele não perdeu a a popularidade que desfrutava. Ainda era competitivo. E não perdeu a confiança do povo. Daí então, passa-se a um novo ato do golpe: a interdição de Lula no processo eleitoral. Ele é condenado, preso e, finalmente, tiraram-no das eleições de 2018. Não pode falar e nem fazer campanha. O golpe foi se aprofundando. E já tinham tirado o gênio da garrafa. Quando digo o gênio da garrafa, eu falo dos militares”.

Dilma Rousseff, provavelmente, quis dizer “já tinham aberto a caixa de Pandora”. Mas muito dilmamente confundiu as bolas e usou a metáfora do gênio da garrafa. Não importa. Ela foi a primeira vítima de um processo, entende? A entrevista de Dilma Rousseff virou destaque no Twitter, impulsionada pelos militantes digitais petistas, outro efeito colateral da ressurreição de Lula. A lavagem da mancha de gordura já começou em escala industrial. Não vai adiantar, porque é mesmo impossível de ser cancelada. Na mesma entrevista, Dilma Rousseff afirma, na sua barafunda mental, que “o golpe permitiu dois crimes imediatos contra o país: o teto de gastos — que tirou o povo do orçamento, afetando os programas sociais e os investimentos — e a destruição da Amazônia”.

Os empresários e banqueiros que estão conversando com Lula precisam dizer que, pelo amor de Janja, não dá para incluir Dilma Rousseff na autolavagem geral do PT. Ele tem de fazer alguma autocrítica. Todo método tem o seu próprio limite.

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