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E depois do fim do mundo binário?

Em reação ao caos, prendemos todos os que falam mal do que resolvemos ser a democracia e damos carta branca a projetos que banem do debate o que intuímos ser falso
E depois do fim do mundo binário?
Foto: Anderson Riedel/PR

O mundo do bolsonarismo foi se estreitando, se estreitando, até se tornar totalmente binário: as pessoas são do bem ou do mal, merecem ódio ou compaixão, é tudo ou nada, contra ou a favor, sem hesitação. Não há área cinzenta; é tudo preto no branco.

Mesmo que no dia seguinte haja um desmentido, será tão assertivo e radical quanto o que no dia anterior foi dito, e isso convence, pois é da postura extremada, e não das ideias, que se alimentam os habitantes desse mundo.

Caso típico ocorreu com o Ministro Alexandre de Moraes. Em um dia, Moraes foi esculachado em praça pública; no outro, virou o douto professor que recebe uma cartinha escolar do aluno.

Essas condutas, ainda que opostas, sempre radicais, podem funcionar por um tempo na política: arregimentam fanáticos, fazem barulho, assustam adversários, criam uma atmosfera de caos. Em algum momento, no entanto, o líder tropeça nos seus próprios cadarços, o projeto faz água, e o mundo se despedaça.

E quando se despedaçar, teremos de nos haver com o que fizemos conosco nesse período, pois nossas reações ao bolsonarismo binário, muitas vezes, têm sido também binárias.

O que faremos com as pessoas que, pelas nossas reações, nos tornamos?

E não estou aqui falando das brigas em família no Natal. Isso até que é bom – a desculpa perfeita para fugir dessas confraternizações fastidiosas.

Meu temor é institucional. Penso especificamente no direito, que é democrático justamente quando sua interpretação foge ao binário, quando sua reflexão é permeável às várias formas de se enxergar um mesmo objeto.

Em reação ao caos, temos prendido todos os que ousam falar mal daquilo que resolvemos ser a democracia, dando carta branca a qualquer projeto de lei que se proponha a banir do debate de forma rápida e fácil o que intuímos ser falso, e ridicularizando quem discorda do que concluímos ser científico.

Aristóteles era um crítico da democracia, Freud foi expulso da associação médica a que pertencia por defender teorias científicas destoantes, e a filosofia mostra que nenhum discurso é em si verdadeiro ou falso– a palavra é incapaz de atacar ou se defender sozinha.

Não sou a favor de nenhum dos que mandaram prender, menos ainda dos discursos que estão sendo banidos. Acho tudo lamentável, mas temo que o modus operandis sobreviva aos tempos de guerra, e nos aflija em tempos de paz.

Se tem uma coisa mais perigosa do que o mal com que o bolsonarismo vem castigando as instituições, certamente é o mal que, em reação ao caos, passamos a guardar em nós.

André Marsiglia Santos é advogado constitucionalista e articulista. Atua com liberdades de expressão e de imprensa

Twitter: (@marsiglia_andre)
LinkedIn: (André Marsiglia Santos )

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