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Menos polícia, mais Schopenhauer, ministro Moraes

Pessoas públicas têm de aprender a conviver com xingamentos, e ver nisso até uma forma de lisonja, a depender da proveniência do agravo
Menos polícia, mais Schopenhauer, ministro Moraes
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Li com certo assombro que, na noite de sexta-feira, o ministro Alexandre de Moraes, incomodado com insultos de sócios do Clube Pinheiros, em São Paulo, a cujos quadros o ministro pertence, mandou um segurança registrar um boletim de ocorrência numa delegacia. Eu não sabia que dava para terceirizar registro de boletim de ocorrência, e aprendi mais essa.

Os insultos, pelo que foi noticiado, inclusive neste site, não foram dirigidos diretamente a Alexandre de Moraes. Ao que parece, teriam sido ouvidos por ele do seu apartamento e um segurança foi verificar de onde partiam. De acordo com o boletim de ocorrência, “o Representante [segurança] se dirigiu até o local e constatou da calçada e por meio da grade do clube quatro indivíduos em uma mesa falando alto e ingerindo bebidas alcoólicas“.

Como publicamos, dois desses indivíduos teriam ido embora depois que um funcionário do clube pediu que cessassem os insultos”. Mas a coisa continuou. Um dos sócios abordados teria chamado o ministro de careca ladrão”, “advogado do PCC” e “careca filha da puta. Também teria dito que “fecharia” o STF. Na delegacia, o sujeito negou tais delicadezas e afirmou que estava no clube assistindo a um jogo de futebol “e que havia várias mesas insultando a pessoa da vítima [Alexandre de Moraes], contudo, que desconhece as qualificações dessas pessoas“.

Personagens públicos têm de aprender a conviver com xingamentos, não importa a área na qual atuam. Se você é poderoso, então, é inevitável que desagrade a uma boa parcela dos cidadãos — e, numa democracia, eles têm o direito de manifestar-se contra você, inclusive com ofensas. Obviamente, há limites para esse direito, todos eles previstos na legislação penal, e ameaças físicas são inadmissíveis. No caso dos sócios do Clube Pinheiros, ninguém disse que bateria no ministro ou coisa pior. Eles apenas o xingaram — e não diretamente a Alexandre de Moraes, repita-se. Era uma conversa de gente alcoolizada.

O fato assombroso, para mim, é exatamente este: um ministro do STF mandando para a delegacia gente que, numa mesa de bar de clube, meio bêbada, resolveu falar o que pensava sobre ele, uma pessoa pública que, por mais esteja revestida de autoridade, é passível de ser criticada com estridência — e essa autoridade, no caso, estava ausente do ambiente, o que torna tudo ainda mais surreal. Embora o contexto seja o bolsonarista, de bravatas contra as instituições e, em especial, o STF, é preciso ter modos também do lado oposto, e lado que se arroga a exclusividade da razão democrática.

O ministro Alexandre de Moraes precisa segurar os seus ímpetos policialescos, e não é preciso ser seguidor de Jair Bolsonaro para achar que ele está exagerando. Eu, se fosse o ministro, até me sentiria lisonjeado ao ser insultado, a depender da proveniência do xingamento e do grau de certeza jurídica sobre as minhas decisões. O agravo é, não raro, o último refúgio de quem perdeu a discussão, como escreveu o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, em A Arte do Insulto. Ele defendia o direito ao insulto por quem se vê colocado em posição inferior ao oponente em uma discussão. “Quando se percebe que o adversário é superior e que não se conseguirá ter razão, personalize, seja ofensivo, grosseiro. Personalizar implica que se aparte do objeto da discussão (porque é uma partida perdida) e se ataque de alguma forma o contendor e a sua pessoa: isso poderá ser chamado de argumentum ad personam, o que é diferente de argumentum ad hominem: este parte de um objeto puramente objetivo para ater-se ao que o adversário disse ou admitiu sobre si. Ao personalizar, porém, abandona-se por completo o objeto e se dirige o ataque à pessoa do adversário: alguém se torna, assim, insultante, maligno, ofensivo, grosseiro. É uma apelação das faculdades do intelecto às do corpo, ou à animalidade”.

Fica o conselho para o ministro Alexandre de Moraes: menos polícia, mais Schopenhauer. É o que faço, até como modesto jornalista, quando sou chamado de “careca filha da puta”.

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