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Não há eleitores no Brasil

Não há eleitores no Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Este é tempo de partido, / tempo de homens partidos”, diz Carlos Drummond de Andrade, no poema Nosso tempo, do livro A Rosa do Povo (1945), seu volume mais político. O que valia em 1945 vale ainda hoje, desafortunadamente. Vivemos um tempo de partidos, de homens e mulheres partidas. A poesia política de então nos ajuda a entender o que somos em “nosso tempo”.

Para compreender o Brasil político, é preciso analisar duas de nossas manifestações culturais mais emblemáticas. O futebol e o carnaval. Somos, em boa medida, decorrências tragicômicas destes elementos identitários.

No futebol, a maioria de nós tem um time. Criticamos erros dele, mas o colocamos como a instituição mais sagrada da pátria amada Brasil. A cada jogo, entre alegrias e tristezas, estamos ao lado de nossa equipe. Gritamos, xingamos, vibramos, soltamos rojões, usamos a camisa de nosso time, se ele for vencedor, e odiamos todos os demais, principalmente um em especial, eleito como responsável por todos os insucessos do nosso. Daí surgem as grandes rivalidades. A da moda: Flamengo versus Palmeira no campeonato nacional. Mas poderia ser Grêmio versus Internacional, no Rio Grande do Sul; Flamengo versus Fluminense, no Rio etc.

Perguntei a um amigo por qual razão ia ao estádio se não torcia para um time específico.

“Para xingar o juiz”, ele me respondeu.

Ou seja, pelo futebol, exorcizamos nossas frustrações mais recônditas. O importante é ter alguém para chamar de inimigo. Isso nos alivia de nossas tensões e nos deixa amortecidos em relação aos nossos próprios erros.

Chegamos então ao primeiro princípio do que é ser brasileiro.

É preciso torcer para algum time e odiar outros, ou no mínimo xingar os juízes.

Nossa outra instituição é o Carnaval. Travestir-se, criar enredos, mitificar uma lenda qualquer, enfim, ter uma forma de epifania que nos tire de nosso cotidiano anódino é uma maneira de manter a crença na vida. Somos um país carnavalesco, que transforma sofrimento em festa, em celebração da existência – e isso tem seu lado curativo. Mas também tem seu lado negativo por nos afastar de qualquer compromisso sério, afetando nossa postura nas horas mais graves. No poema Cabo Machado, de Mário de Andrade, de O Losango Cáqui (1926), esta contaminação carnavalesca atinge até a caserna: “Cabo Machado marchando / é muito pouco marcial. / Cabo Machado é dançarino, sincopado, / marcha vem-cá-mulata”. Esta sensualidade é definida pelo poeta como “bandeira nacional”.

Vamos então para o segundo princípio de nossa condição.

Transformamos tudo em festividade.

O leitor deve estar se perguntando o que isso tudo tem a ver com o título deste artigo.

Presos a estas duas marcas de nossa identidade, não discutimos política, não avaliamos projetos de país, não ouvimos especialistas, desperdiçamos nossas melhores mentes. Apenas torcemos para o time A ou para o time B e colocamos toda a nossa energia neste esforço e toda nossa crença para fazer com que ele seja o vencedor do jogo. Há, é claro, os isentões que se contentam em ofender a mãe do juiz, o que não deixa de ser uma forma de tomar partido.

Não existem, portanto, eleições no Brasil, essa alegre ficção democrática. Existe torcida organizada, para este ou aquele partido. E quando saímos às ruas, nos protestos, que são duros em outras democracias, aqui acabamos em manifestações dançarinas, sincopadas, com blocos alegres, fantasiados, como se desfilando. Quais as consequências práticas de nossas manifestações carnavalescas diante de situações gravíssimas?

Estas performances pouco efeito produzem como mudança política e servem mais pela plasticidade jornalística que propiciam. E as eleições, longe de serem atos conscientes de escolha de propostas exequíveis de gestão, são manifestações de torcidas organizadas em prol de nosso time, de nossa escola de samba, de nosso partido.

Miguel Sanches neto é escritor, autor, entre outros, do volume de crônicas Herdando uma Biblioteca (Ateliê Editorial, 2020).

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