No gabinete do Doutor Queiroga

No gabinete do Doutor Queiroga
Foto: Divulgação/Soc. Brasileira de Cardiologia

A julgar pelas primeiríssimas declarações do cardiologista Marcelo Queiroga, o novo ministro da Saúde será permanentemente uma espécie de Nelson Teich das duas primeiras semanas no cargo. Depois de cair de paraquedas no meio do quartel bolsonarista, o oncologista Teich transigiu até onde pôde com Jair Bolsonaro, mas se rendeu menos de um mês após aceitar a função. Descobriu também que tinha uma reputação a zelar.

Ungido ministro, Queiroga já correu a endossar o uso da hidroxicloroquina em doentes de Covid, afirmando que os médicos estão livres para usar a substância, apesar da ineficácia do remédio e dos riscos que ele comporta para certos pacientes.“Existem determinadas medicações que são usadas, cuja evidência científica não está comprovada, mas, mesmo assim, médicos têm autonomia para prescrever”, disse ele. Por essa declaração, supõe-se que se médicos começarem a prescrever pajelanças em Unidades de Terapia Intensiva, por recomendação de Bolsonaro, o doutor Queiroga achará tudo muito natural. Imagina-se que também que ele dará o mesmo tipo de declaração quanto ao uso de ivermectina, outra panaceia bolsonarista que só funciona em seres sem cérebro.

No gabinete do Dr. Queiroga, o lockdown também é palavra proibida, em obediência aos ditames do clínico geral da sociopatia. Afirmou o novo ministro: “Esse termo de lockdown decorre de situações extremas. São situações extremas em que se aplica. Não pode ser política de governo fazer lockdown. Tem outros aspectos da economia para serem olhados.” No mundo civilizado, esse lugar cada vez mais distante do Brasil, depois de um ano de pandemia, os governos têm resistido a decretar outra vez lockdown, mas diante da violência da segunda onda ou terceira ondas — já não se sabe mais como definir o vagalhão –, a medida continua a ser política de governo. Veja-se o caso da Itália de Mario Draghi e mesmo na França de Emmanuel Macron, que pode vir a ordenar em breve o lockdown em Paris.

O novo ajudante de ordens disse ainda quea política é do governo Bolsonaro, não é do ministro da Saúde. O ministro da Saúde executa a política do governo”. Não há outra interpretação de texto possível: Queiroga parece disposto a aceitar passivamente que o presidente da República continue a ser o verdadeiro titular da pasta. Basicamente, ele está dizendo “esqueçam tudo o que disse e apoiei” quando não era ministro.

O que o cardiologista Teich não tinha e o cardiologista Queiroga tem é a possibilidade de comprar, distribuir e aplicar vacinas contra a Covid. A possibilidade e a responsabilidade de fazê-lo o mais rápido possível, a fim de poupar milhares de vidas. A previsão neste momento é que, se a imunização continuar no ritmo atual, a doença matará um total de meio milhão de brasileiros, antes que cheguemos a atingir a imunidade de rebanho por meio de vacinação em massa. Infelizmente, poderemos dobrar a meta que não existe porque, ao que tudo indica, no gabinete do simpático doutor Queiroga quem manda é o sociopata.

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