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O Brasil entre aspas

Como uma anotação encontrada com o ativista Allan dos Santos resume o único programa de governo de Jair Bolsonaro, que é manifestação de doença antiga
O Brasil entre aspas
Foto: Adriano Machado/Crusoé

De todas as anotações encontradas no material apreendido pela Polícia Federal com o ativista bolsonarista Allan dos Santos, no âmbito do inquérito dos atos antidemocráticos, a que mais me chamou atenção foi a seguinte: “a prioridade do presidente Bolsonaro não é resolver o ‘problema do Brasil’, mas eliminar os problemas DELE.”

Como noticiamos ontem, não está claro se a frase foi dita pelo ideólogo Olavo de Carvalho, que daria orientações ao ativista, de acordo com a PF, ou por outra pessoa. Aparentemente, data de janeiro de 2019. Ou seja, do primeiro mês do governo de Jair Bolsonaro, quando Eduardo Bolsonaro, igualmente conhecido como Dudu Bananinha, dedicava-se a formar deputados — o que, imagino, consistia numa espécie de alinhamento doutrinário, se que é se pode chamar de doutrina essa mixórdia despejada diariamente pelos filhos do presidente da República e os seus acólitos sobre os brasileiros.

A frase chama atenção porque é um lapso revelador, na  ambiguidade causada pela má construção, do verdadeiro programa de governo do  presidente. Trata-se de eliminar os problemas DELE, não do país, o resto funcionando como cortina de fuligem para ludibriar aquele quarto do eleitorado que, pelo jeito, gosta de ser ludibriado.

Para eliminar os problemas DELE, Jair Bolsonaro jogou fora o pacote anticorrupção, ajudou a destruir a Lava Jato, interferiu politicamente na Polícia Federal, que agora se encontra balcanizada como nos tempos de Lula, passou a usar a Abin privativamente, aliou-se ao Centrão e instituiu um orçamento secreto para comprar parlamentares. Para eliminar os problemas DELE,  concentrado que está em reeleger-se, em traição à sua promessa de não concorrer pela segunda vez ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro inventou uma cura falsa para a Covid e continua a estimular as pessoas a retomar a vida normal, a fim de tentar produzir imunidade de rebanho natural ao custo de centenas de milhares de vidas — o que importa apenas são as estatísticas de crescimento para vender na campanha eleitoral de 2022. Para eliminar os problemas DELE, ele noiva com o golpismo (é muito mais do que um flerte a esta altura), estimulando a indisciplina nos quartéis e creditando desde já uma eventual derrota nas urnas a fraude.

Todos esses fatos são cansativamente sabidos, mas nunca foram tão bem sintetizados (e antecipados) como nesta frase edificada em lapso: “a prioridade do presidente Bolsonaro não é resolver o ‘problema do Brasil’, mas eliminar os problemas DELE”. Trata-se de manifestação crua do patrimonialismo brasileiro, um sistema sempre aberto a arrivistas que reproduz as perversidades seculares a que nos sujeitamos — e que coloca o “problema do Brasil” sempre dessa forma, entre aspas. Jair Bolsonaro é sintoma purulento de doença antiga.

Leia mais: O furo de reportagem de O Antagonista sobre a mansão comprada por Flávio Bolsonaro em Brasília é dissecado na edição desta semana da Crusoé
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